|
A idéia de organizar um banco de dados sobre o trabalho das mulheres no Brasil, disponibilizando-o através da Internet, surgiu da necessidade de responder, na maior parte das vezes rapidamente, a demandas de usuários tão diversificados quanto estudantes, colegas, planejadores e formuladores de políticas públicas, representantes dos meios de comunicação e outros.
As estatísticas aqui analisadas são as oficiais, obtidas em levantamentos de órgãos governamentais, seja o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística/IBGE - como os Recenseamentos Demográficos, as Pesquisas Nacionais por Amostra de Domicílios/PNADs e outros - seja o Ministério do Trabalho - caso da Relação Anual de Informações Sociais/RAIS - seja a Fundação SEADE/Sistema Estadual de Análise de Estatísticas ou, finalmente, o Ministério de Educação e Cultura/MEC através do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira/INEP, por intermédio dos Censos da Educação Superior e do Censo Escolar.
O que tem caracterizado a nossa linha de pesquisas sobre o trabalho feminino é a busca, em fontes como as mencionadas acima, de informações que permitam identificar e interpretar as múltiplas formas de atividade realizadas pelas mulheres. O referencial teórico de gênero, ao qual devem ser acrescentados o envolvimento e o compromisso com a luta feminista, tem orientado as perguntas a serem feitas, as informações a serem procuradas, a maneira de analisar e de apresentar os dados, e tem determinado a constante comparação de informações sobre homens e mulheres, a fim de constatar diferenças e/ou semelhanças "de gênero". Os resultados dos estudos que realizamos, alguns deles desde os anos setenta, têm trazido algumas revelações:
uma grande parte do trabalho realizado pelas mulheres, em todas as sociedades, é invisível, desvalorizado e nem sequer considerado como atividade econômica. Tanto é assim que, nos levantamentos mencionados, os afazeres domésticos são classificados como inatividade econômica;
- as responsabilidades histórica e culturalmente atribuídas às mulheres na esfera reprodutiva determinam a posição secundária ocupada por elas no mercado de trabalho;
- a posição na família, assim como a estrutura e o ciclo de vida familiar, impõem limites ou possibilidades para a participação das mulheres no mercado de trabalho. É por isso que sempre procuramos, nesses levantamentos, informações que permitam associar o trabalho à situação familiar, como a idade da trabalhadora, a posição na família, a presença de filhos e outros;
- as comparações entre os sexos mostram que os efeitos da relação trabalho e família manifestam-se apenas entre as mulheres e não entre os homens; oferta de trabalho e qualificação determinam o trabalho masculino, enquanto o feminino sofre também o efeito de condicionantes familiares;
- as mulheres ocupam, no mercado de trabalho, posição secundária em relação aos homens. Elas são a maioria nas posições mais vulneráveis, como no informal por exemplo; além disso desempenham um leque de ocupações diferentes das masculinas, têm mais dificuldade para ascender profissionalmente e ganham, sistematicamente, menos do que os colegas, mesmo quando têm mais estudo ou trabalham igual número de horas;
ao longo do tempo, apesar das barreiras, as mulheres vêm conquistando mais espaço no mercado de trabalho: aumentaram significativamente sua participação, superaram alguns dos limites impostos pela condição familiar e vêm ingressando, graças à escolaridade, em melhores ocupações. Este avanço, contudo, não tem impedido que grande parte das trabalhadoras se encontre no emprego doméstico, no domiciliar e em atividades não- remuneradas.
- a crise do emprego e expansão das atividades informais dos anos noventa tem afetado trabalhadores de ambos os sexos. Até agora, tem tido efeito mais perverso sobre os homens, ao atingir, principalmente a indústria. Contudo, pode vir a afetar as mulheres, caso elas percam espaços de trabalho historicamente ocupados, nos serviços e no informal em geral.
Essas e outras constatações têm sido mostradas nos textos - artigos, capítulos de livros, livros, monografias - elaborados ao longo desses anos, ou em apresentações em congressos, seminários e outros eventos dos quais temos participado. No entanto, nem sempre os interessados têm tido acesso aos resultados dessas pesquisas. Alguns não foram publicados, outros são relatórios de consultoria e as apresentações, em geral acompanhadas de gráficos e tabelas, acabam ficando restritas aos participantes de cada evento. Este é o motivo pelo qual resolvemos, inicialmente, reunir todo este material neste Banco de dados.
Com a intenção de mantê-lo sempre vivo e "bem alimentado", desde a sua criação ( em 1998) até o presente momento, este Banco foi atualizado duas vezes: na primeira, no ano de 2000, apresentando informações até o ano de 1998 e, na segunda, recentemente finalizada, até 2002 . Mas a realização deste projeto só tem sentido se o banco for consultado e sua utilidade for comprovada. Por isso, convidamos todos os interessados a percorrê-lo, enviando-nos críticas e sugestões para que ele possa ser melhorado.
São Paulo, outubro de 2004
Cristina Bruschini e Maria Rosa Lombardi
|
|