Fundação Carlos Chagas lança documentário em homenagem a 100 anos da demógrafa Elza Berquó
Por Jade Castilho e Luanne Caires
02/04/2026 16:06:15
“Uma mulher disruptiva". É assim que a pesquisadora Sandra Unbehaum, do Departamento de Pesquisas Educacionais da Fundação Carlos Chagas, define Elza Berquó na abertura dodocumentáriode mesmo nome. Lançado pela FCC em abril deste ano, em parceria com o Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap), o filme é uma homenagem ao centenário da pesquisadora que marcou o Brasil pela construção de uma demografia crítica e atenta às desigualdades sociais.
Graduada em Matemática na Pontifícia Universidade Católica de Campinas (PUC-Campinas) em 1947, Elza concluiu o mestrado em Estatística na Universidade de São Paulo (USP) dois anos depois. Em 1959, formou-se Doutora em Bioestatística pela Columbia University, nos Estados Unidos.
Na década de 1960, de volta ao Brasil, iniciou um conjunto de pesquisas que mudariam a maneira de se entender os rumos da população brasileira, a partir de um olhar visionário para questões que ainda eram negligenciadas.
Na então Faculdade de Higiene e Saúde Pública da USP, hoje apenas Faculdade de Saúde Pública (FSP-USP), Elza iniciou suas pesquisas sobre fecundidade humana e criou, em 1966, o Centro de Estudos de Dinâmica Populacional (Cedip). Integrado à FSP, foi o primeiro centro dedicado a esse tema no país e contribuiu para a formação da primeira geração de pesquisadores especializados em Demografia.
No mesmo período, em 1965, ao analisar os padrões reprodutivos na cidade de São Paulo, Elza antecipou a tendência de queda de fecundidade que seria registrada para as mulheres brasileiras em nível nacional a partir daPesquisa Nacional de Reprodução Humana, desenvolvida também por ela em 1968.
Por seu posicionamento crítico, especialmente no que se referia à mortalidade infantil, pouco tempo depois foi afastada da USP de maneira compulsória pelo regime cívico-militar. Mas, mesmo em condições adversas, Elza aplicou sua determinação e resistência ao fortalecimento das instituições e do conhecimento e, em 1969, participou da fundação doCebrap, onde criou um programa de formação voltado especificamente para pesquisadoras negras e deu sequência às atividades da Pesquisa Nacional de Reprodução Humana. É o exemplo de que “onde tem uma fresta, a gente entra. E onde tem uma fresta, há esperança", como Sandra Garcia, antropóloga e demógrafa do Centro, comenta no filme.
Além de aspectos de gênero, raça e direitos reprodutivos e sexuais trabalhadosao longo de toda a sua carreira, Elza voltou-se ao acolhimento e ao estudo das juventudes e, em 2012, desenvolveu o projeto “Dar voz aos jovens", financiado pela Fundação Carlos Chagas, em parceria com o Cebrap. A iniciativa fomentava a construção de narrativas sobre sexualidade, desejos, medos e inseguranças a partir da perspectiva de adolescentes e transformava-as em curtas-metragens. “O ‘Dar voz aos jovens’ tinha uma certa ousadia na metodologia e isso é uma característica muito forte da Elza", explica Sandra Unbehaum.
Ousadia que se expressa também na condução da criação de múltiplos espaços institucionais para o fortalecimento da Demografia enquanto campo de pesquisa e de formação. Além do Cepid e do Cebrap, a pesquisadora liderou a fundação da Associação Brasileira de Estudos Populacionais (Abep) e doNúcleo de Estudos Populacionaisda Universidade Estadual de Campinas (Nepo-Unicamp). Na FCC, a pesquisadora fez parte do Conselho Curador por 31 anos e, atualmente, é membra de seu Comitê de Honra.
Para Rubens Murillo Marques, presidente de honra da FCC, “a Elza tem uma característica que é a de estimular o desenvolvimento e o crescimento dos outros".
O filme traz, ainda, relatos de outras pesquisadoras e parceiros de trabalho sobre sua vivência com Berquó e os projetos conduzidos pela pesquisadora.
Sobre o documentário
O filme começou a ser produzido em 20 de setembro de 2025 pela M.HUB Estúdio Criativo e carrega o conceito “Entre lugares”, em sintonia com a atuação de Berquó nas áreas da matemática, demografia, causas sociais e fortalecimento institucional.
O material audiovisual está dividido em três partes: vida aos dados; projetos, pesquisas e instituições; e legado.
Confira o documentário completono canal da FCC no YouTube.