Elza Berquó, pesquisadora e conselheira da Fundação Carlos Chagas
Referência internacional em demografia, Elza deixa legado para os estudos sobre população, gênero, raça, direitos reprodutivos e desigualdades sociais no Brasil
Fundação Carlos Chagas
16/07/2026 16:31:15
A Fundação Carlos Chagas manifesta profundo pesar pelo falecimento de Elza Berquó, ocorrido nesta quinta-feira, 16 de julho de 2026. Uma das mais importantes cientistas brasileiras e integrante do Conselho Curador da instituição por 31 anos, Elza deixa um legado inestimável para a ciência do Brasil, que ultrapassa sua extraordinária epioneira produção como pesquisadora.
Sua trajetória acadêmica e profissional foi marcada pelo rigor científico, pelo compromisso com a produção de conhecimento de excelência e pela defesa dos direitos humanos, da equidade e da justiça social. Ao longo de décadas, Elza Berquó contribuiu decisivamente para a compreensão das transformações demográficas do Brasil e para o fortalecimento da pesquisa científica comprometida com os desafios do país.
Graduada em Matemática na Pontifícia Universidade Católica de Campinas (PUC-Campinas) em 1947, Elza concluiu o mestrado em Estatística na Universidade de São Paulo (USP) dois anos depois. Em 1959, formou-se Doutora em Bioestatística pela Columbia University, nos Estados Unidos. Na década de 1960, de volta ao Brasil, iniciou um conjunto de pesquisas que mudariam a maneira de se entender os rumos da população brasileira, a partir de um olhar visionário para questões que ainda eram negligenciadas.
Na então Faculdade de Higiene e Saúde Pública da USP, hoje apenas Faculdade de Saúde Pública (FSP-USP), Elza iniciou suas pesquisas sobre fecundidade humana e criou, em 1966, o Centro de Estudos de Dinâmica Populacional (Cedip). Integrado à FSP, foi o primeiro centro dedicado a esse tema no país e contribuiu para a formação da primeira geração de pesquisadores especializados em Demografia.
Em 1965, ao analisar os padrões reprodutivos na cidade de São Paulo, Elza foi pioneira e antecipou a tendência de queda de fecundidade que seria registrada para as mulheres brasileiras em nível nacional a partir da Pesquisa Nacional de Reprodução Humana, desenvolvida também por ela em 1968. Por sua visão crítica, especialmente no que se referia à mortalidade infantil, pouco tempo depois foi afastada da USP de maneira compulsória pelo regime cívico-militar.
Mas, mesmo em condições adversas, Elza aplicou sua determinação e resistência ao fortalecimento das instituições e do conhecimento e, em 1969, participou da fundação doCentro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap), onde criou um programa de formação voltado especificamente para pesquisadoras negras e deu sequência às atividades da Pesquisa Nacional de Reprodução Humana. Além do Cepid e do Cebrap, a pesquisadora liderou a fundação da Associação Brasileira de Estudos Populacionais (Abep) e doNúcleo de Estudos Populacionais da Universidade Estadual de Campinas (Nepo-Unicamp).
ParaSandra Unbehaum, pesquisadora da FCC, parceira em pesquisas e amiga de Elza, a demógrafa era uma pessoa agregadora, rodeada de amigas e amigos. Gostava de celebrar a vida. Festiva. Era também provocadora, rigorosa e questionadora. Desempenhou um papel fundamental no Conselho Curador da instituição e em seu Comitê de Honra, com um olhar carinhoso e atento para oDepartamento de Pesquisas Educacionais, onde desenvolveu projetos, participou de coletâneas e comissões de pesquisa.
"Que ela nos inspire a seguir com a mesma vontade de vida, incansável, sempre com novas perguntas; que sejamos curiosas e curiosos, atentas e atentos ao que ainda não foi respondido pela ciência, pelas políticas públicas, visando uma sociedade justa, pluralista e sempre democrática", declara Sandra.
Elza formou gerações de pesquisadoras e pesquisadores, inspirou instituições e consolidou um modo de fazer ciência pautado pela ética, pela independência intelectual e pelo compromisso com o interesse público. Em abril de 2026, a FCC lançou odocumentário 100 anos de Elza Berquó: tributo, uma homenagem ao centenário da pesquisadora. O filme, elaborado em parceria com o Cebrap, carrega o conceito “Entre lugares”, em sintonia com a atuação de Berquó nas áreas da matemática, demografia, causas sociais e fortalecimento institucional.
Neste momento de despedida, a Fundação Carlos Chagas homenageia a pesquisadora e manifesta solidariedade aos seus familiares, amigos, colegas e a toda a comunidade científica. Seu legado permanecerá vivo, inspirando novas gerações e reafirmando a importância da ciência na construção de uma sociedade mais justa, democrática e inclusiva.
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