Novo estudo do British Council realizado pela FCC mapeia ensino de ciências e educação digital em seis capitais brasileiras
Em seu segundo volume, relatório de pesquisa apresenta cenário das diretrizes curriculares para o ensino de ciências no ensino fundamental e a educação digital em redes municipais de ensino
Jade Castilho
01/10/2026 09:30:00
Já está disponível osegundo volume do relatório da pesquisa Panorama da Educação STEMno Brasil, lançado pelo British Council (organização internacional do Reino Unido para relações culturais e oportunidades educacionais). A pesquisa, realizada pela Fundação Carlos Chagas, destaca iniciativas em seis capitais brasileiras, de quatro regiões do país, para o ensino de ciências nos anos finais, incluindo a educação digital.
Por meio de análise documental e entrevistas com 24 gestores e profissionais das Secretarias Municipais de Educação de Manaus, Belém, João Pessoa, Rio de Janeiro, São Paulo e Curitiba, o levantamento demonstra que, em todas as capitais analisadas, houve alinhamento à Base Nacional Comum Curricular no que diz respeito ao letramento científico e processos investigativos.
Com relação às unidades temáticas, o ensino de ciências do 6º ao 9º ano do Ensino Fundamental é estruturado, de acordo com a pesquisa, em três eixos permanentes: Matéria e Energia; Vida e Evolução; Terra e Universo. Além disso, o estudo verificou que há um esforço para incluir Temas Integradores e Contemporâneos (TCTs), como educação ambiental, relações étnico-raciais e gênero, como forma de romper com a lógica de fragmentação do conhecimento, integrando ciências a outras perspectivas teóricas e práticas de pensar e ler o mundo.
Todas as seis capitais que compuseram a pesquisa pautam suas ações educativas considerando o território e as questões que envolvem as relações étnico-raciais, de gênero, sustentabilidade e meio ambiente.
ParaSandra Unbehaum, pesquisadora doDepartamento de Pesquisas Educacionaisda FCC e coordenadora da pesquisa, um bom currículo para o ensino de ciências, com foco na educação STEM, bem como na educação digital, é fundamental, tanto para a relevância de uma educação científica de qualidade ao longo de toda a educação básica, como para assegurar a equidade de raça e de gênero nas carreiras científicas.
“Diferentes estudos apontam para a baixa representação de mulheres nas áreas profissionais de ciências e tecnologias. A mudança deste cenário precisa começar no ensino fundamental e vimos que a temática está presente nos referenciais curriculares das seis Smeds participantes. O desafio está na formação continuada docente que assegure o letramento étnico-racial e de gênero”, comenta a pesquisadora.
Entre as inovações trazidas nas diretrizes curriculares para o ensino de ciências da natureza está a inserção das tecnologias educacionais como componente curricular, com foco na educação digital. Os depoimentos anunciam exemplos práticos dessa relevância: incluem o uso de simulações computacionais para experimentação virtual em laboratórios, o acesso a recursos on-line para pesquisa e estudo autônomo, e a integração de ferramentas interativas para aprimorar a compreensão de conceitos científicos complexos e vai além, como explica Alessandra Moura, gerente sênior de programas de Língua Inglesa e Educação Básica do British Council.
“O pensamento computacional vai muito além do uso de ferramentas digitais, pois mobiliza competências transversais, como pensamento crítico, resolução de problemas, criatividade, inovação, ética e capacidade de aprender continuamente. Essas competências são fundamentais para que crianças e jovens compreendam e enfrentem os desafios de um mundo marcado por duas transformações simultâneas: a transição tecnológica e a transição climática. Esperamos que este estudo contribua para fortalecer currículos e políticas de formação docente que assegurem a todos os estudantes oportunidades de desenvolver uma educação científica e digital crítica, inclusiva e conectada aos desafios do futuro”.
Abordagens curriculares convergentes
A análise documental e os relatos revelaram alinhamento estratégico e pedagógico entre as redes municipais, com o objetivo de avançar na modernização do ensino.
Com relação ao alinhamento com a Base Nacional Comum Curricular (BNCC), todas as seis capitais integraram suas diretrizes curriculares a essa proposição, adotando uma concepção pedagógica comum que valoriza a interdisciplinaridade e a contextualização do conhecimento de acordo com as realidades locais e sociais dos estudantes.
Além disso, há um consenso teórico explícito nos currículos que prioriza a alfabetização e o letramento científico, embasados em referências e em referenciais teóricos, reconhecendo, a partir disso, o estudante como co-construtor do conhecimento, por meio do estímulo à investigação, experimentação e projetos práticos.
Práticas Inovadoras de Destaque
Entre os resultados e práticas observadas e relatadas na pesquisa, observou-se e destacou-se como cada capital criou soluções criativas para responder a demandas em seus contextos específicos e diversos.
Ao longo da pesquisa, observou-se que Belém e São Paulo adotam currículos autorais com forte influência da pedagogia freireana, visando uma educação emancipadora e crítica. Belém, por exemplo, desenvolveu óculos de realidade virtual de baixo custo feitos com fibra de miriti (buriti) para o ensino de geometria.
Belém desenvolve o Programa Esperançar na formação docente: construindo escolas humanizadoras e transformadoras, que utiliza um regime de alternância entre a universidade, em diálogo com a Universidade Federal do Pará (UFPA), e a prática na escola. O projeto é feito em parceria com 11 universidades, compõe-se de 180 horas de formação e tem como lócus de formação o docente, a escola e a universidade de forma colaborativa em articulação entre trabalho e estudo.
A capital paulista destacou-se por realizar parcerias internacionais, como com a Universidade de Columbia, nos Estados Unidos, para implementar o Programa de Aprendizagem Construcionista (PAC) e instituiu a figura dos formadores de Tecnologia para Aprendizagem (TPA) como multiplicadores nas diretorias de ensino, além de consolidar o Sistema de Gestão de Aprendizagem (SGA) unificado.
Em Curitiba, utiliza-se o conceito de “Cidade Educadora”, integrando espaços públicos ao aprendizado dos estudantes. Além da Cidade Educadora, Curitiba instituiu osFaróis do Saber e Inovação, que incluem laboratórios maker e versões móveis com impressoras 3D e óculos de realidade virtual.
João Pessoa implementou as imersões tecnológicas, em que os professores vivenciam uma semana intensa de formação com os equipamentos da escola e contam com o apoio contínuo de um monitor/mediador de informática residente na unidade para auxiliar no planejamento das aulas.
Já em Manaus, as escolas adotam os itinerários amazônicos e temas como evolução e diversidade da vida local. Entre as iniciativas de destaque da capital manauara está o Projeto de Oficinas de Formação em Serviço (OFS), uma especialização para docentes da área de ciências em parceria com a Universidade do Estado do Amazonas (UEA).
Com relação ao trabalho em sala de aula, utiliza-se o pensamento computacional sem dependência tecnológica, como jogos de tabuleiro para ensinar lógica de programação para as turmas de Ensino Fundamental.
No Rio de Janeiro, equipes formadoras implementaram o Ginásio Educacional Tecnológico (GET), focado em abordagem STEAM (metodologia educacional interdisciplinar que integra Ciências, Tecnologia, Engenharia, Artes e Matemática), cultura maker e robótica. Neste trabalho, a formação é dividida entre a parte pedagógica (Escola de Formação Paulo Freire) e a tecnológica (Naves do Conhecimento).
Por fim, a partir das análises documentais e entrevistas com equipes educativas de João Pessoa, observou-se a distribuição de tablets para estudantes eChromebookspara professores, além do investimento em SalasGooglee laboratórios de robótica como propostas de fomento de uma educação STEM.
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