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Fundação Carlos Chagas lança resultados de pesquisa sobre atuação docente em múltiplas escolas

Relatório de Pesquisa Educacional identifica condições e práticas das redes de ensino que levam professores a trabalhar em mais de uma escola no Brasil

Jade Castilho

Publicado em:

29/09/2026 15:00:00

O que leva um professor trabalhar em mais de uma escola no Brasil? Essa foi uma das perguntas que basearam a pesquisaTrabalho docente em uma única escola: subsídios para a efetivação do Plano Nacional de Educação 2026-2036, feita pela Fundação Carlos Chagas. 

O estudo aborda as diversas práticas das redes de ensino que levam os professores a trabalhar em mais de uma escola no país e busca oferecer subsídios para a efetivação do PNE do próximo decênio, especificamente com relação à estratégia 17.16, à qual prevê mecanismos para garantir o cumprimento da jornada de trabalho dos professores em um único estabelecimento escolar, visando à valorização docente e à melhoria da qualidade educacional.

A pesquisa foi feita em parceria com a Universidade de Stanford e o D³e (Dados para um Debate Democrático na Educação) e teve apoio do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), Instituto Península, Instituto Sonho Grande, Movimento Profissão Docente e Instituto Natura.

O Relatório de Política Educacional (RPE), lançado nesta terça-feira, dia 29 de setembro de 2026, é resultado de uma ampla pesquisa realizada a partir de revisão de literatura nacional e estrangeira, análise de dados do Censo da Educação Básica, estudos de caso em cinco redes estaduais e aplicação de um questionário a uma amostra de professores do ensino fundamental e médio do país.

Entre os principais dados levantados está que a maioria dos professores brasileiros prefere trabalhar em apenas uma escola, lecionando, no máximo, entre 20 e 30 horas-aula semanais. No entanto, em algum momento de suas carreiras, muitos trabalharam em mais de uma escola, lecionando 40 horas-aula ou mais por semana. 

O trabalho em múltiplas escolas decorre da desvalorização remuneratória, de escolhas individuais, de condições contextuais, mas especialmente de políticas e de processos das redes.

Entre as condições contextuais, destacam-se o horário de funcionamento das escolas, o ordenamento jurídico, a configuração da oferta de ensino em cada território, a formação e a contratação de docentes por disciplina. Há ainda outros indicadores que influenciam esse cenário, como o tempo restrito da jornada para trabalhos extraclasse, a oferta de ampliação da carga horária acima de 40 horas semanais, a fragmentação curricular e práticas de contratação que oferecem jornadas de tempo parcial aos docentes efetivos e que não oferecem carga horária mínima aos docentes temporários. 

Como pensar políticas públicas voltadas para esse tema? 

O RPE, além do resumo da pesquisa e dos resultados encontrados pelo levantamento, traz recomendações pontuais e estruturantes, direcionadas para a formulação de políticas públicas educacionais. 

Entre as recomendações pontuais estão a abertura de edital para professores efetivos ampliarem a jornada para 40 horas de forma definitiva, principalmente nas redes em que a jornada padrão do professor for de tempo parcial. 

O relatório recomenda o cumprimento de, no mínimo, um terço da jornada do professor destinado ao planejamento individual, ao trabalho coletivo e à formação continuada, e, por fim, a revisão do processo de atribuição de aulas para inserir regras que favoreçam o cumprimento da jornada de trabalho em apenas uma escola.

Já as recomendações estruturantes direcionam-se para: 

  • Implementação do modelo de alocação de cada professor a uma única escola, com revisão das matrizes curriculares com a inclusão de componentes flexíveis e ampliação da atuação do professor na escola com outras responsabilidades pedagógicas. Essas medidas são favorecidas, por exemplo, pela adoção do ensino integral.
  • Revisão dos planos de cargos, carreiras e salários.
  • Planejamento da força de trabalho docente para curto, médio e longo prazo.
  • Realização periódica de concursos públicos, com profissionais temporários não ultrapassando o limite máximo de 30% do quadro docente estabelecido.
  • Regra de contratação para profissionais temporários com carga horária de, no mínimo, 20 horas semanais e remuneração equivalente ao valor inicial pago aos professores efetivos.


Para a pesquisadora doDepartamento de Pesquisas Educacionais (DPE)da FCC e coordenadora do estudo,Gabriela Moriconi, é preciso superar a visão ainda comum no Brasil dos professores como “fornecedores de aulas”:

“A nossa recomendação é a adoção de uma política de alocação de cada professor a uma única escola, com a contratação em jornada de tempo integral com garantia do tempo adequado para o trabalho extraclasse e com a diversificação das suas responsabilidades pedagógicas. Para isso, precisamos da construção de planos alinhados entre equipes pedagógicas e de gestão de pessoas das redes de ensino”, completa. 

Mapeando e compreendendo o fenômeno

Em 2024, umanota técnica, publicada com os resultados obtidos pela primeira fase da pesquisa, mostrou que, aproximadamente, 450 mil professores trabalham em duas ou mais escolas no país, condição que traz prejuízos à saúde docente e à qualidade do ensino e da aprendizagem. 

Anota técnica partiu de dados do Censo Escolar 2023para traçar um perfil dos professores brasileiros que trabalham em mais de uma unidade escolar. 

No início deste ano, um artigo com uma revisão sistemática da literatura nacional e internacional sobre fatores explicativos para o trabalho docente em múltiplas escolas foipublicado na revista Ensaio: Avaliação e Políticas Públicas em Educação.

Na revisão, foram encontrados 82 mencionando fatores explicativos para o fenômeno. Os principais fatores identificados incluem os baixos salários, a estrutura de contratos de trabalho, que permite o acúmulo de empregos, e a organização curricular, que pode impelir o docente a completar a carga horária em mais de uma escola.  

Saiba mais em:

Relatório de Pesquisa Educacional - Trabalho docente em uma única escola: subsídios para a efetivação do Plano Nacional de Educação 2026-2036

Nota técnica Atuação docente em múltiplas escolas no Brasil

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