Janeiro Branco convida a repensar as relações no ambiente de ensino
A campanha focada em ações sobre saúde mental enfatiza como é importante o tema ser abordado de forma coletiva
Guilbert Inácio
20/01/2026 20:16:29
O primeiro mês do ano, como ponte entre o fim de um ciclo e o início de outro, foi escolhido pela campanha Janeiro Branco, movimento social e cultural sobre cuidados com a saúde da mente. A iniciativa tem o propósito de promover ações coletivas de sensibilização e educação sobre a importância da saúde psicossocial, razões pelas quais o debate deve ser trazido para o ambiente de ensino.
Em um mundo exausto, de pressões, urgências e silêncios, o contexto educacional também é afetado, principalmente para docentes e estudantes. Por isso, faz-se necessário o desenvolvimento de ações coletivas para fomentar o bem-estar psicológico, o equilíbrio emocional e a qualidade de vida.
A campanha surgiu em 2014, em Uberlândia (MG), por meio da iniciativa de Leonardo Abrahão, psicólogo e atual presidente do Instituto de Desenvolvimento Humano Janeiro Branco (IDHJB). O movimento cresceu e, posteriormente, ganhou apoio de instituições e outros segmentos profissionais, além de ter auxiliado na criação de leis de acolhimento psicológico, como a Lei Federal nº 14.556/2023.
Em 2026, o IDHJB escolheu o tema Paz. Equilíbrio. Saúde Mental com o objetivo de convidar o mundo a desacelerar e ressignificar a relação com a saúde mental. Trata-se de um aspecto que deve ser transformado em diferentes núcleos da sociedade, como as instituições de ensino, em que muitos professores e alunos passam por situações que afetam a saúde da mente.
Saúde mental na educação básica
Os espaços de educação têm como papel transmitir conhecimento, mas também promover o bem-estar, a escuta e o acolhimento. Para isso, a saúde mental também deve ser pautada e direcionada aos docentes que passam por sobrecargas.
No ensino básico, professores passam o ano letivo lidando com inúmeras situações de estresse como o relacionamento com alunos e pais e o planejamento de inúmeras atividades, além da perseguição ideológica e da falta de políticas de valorização docente que podem culminar em doenças mentais.
De acordo com o relatório Pesquisa Internacional sobre Ensino e Aprendizagem (Talis) 2024, coordenado pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), no Brasil, 16,5% dos docentes relatam um alto impacto negativo em sua saúde mental. O dado vai ao encontro da pesquisa Crise Silenciosa de Saúde Mental na Educação Básica Privada do Instituto Educbank, em parceria com a consultoria Great Place to Study, divulgada em setembro de 2025, que identificou que, 13% dos professores se sentem cansados, 14% preocupados, 8% ansiosos e 6% desmotivados no ambiente escolar.
Isso compromete o processo educativo e pode gerar baixo desempenho dos alunos, atraso no plano de ensino, entre outros fatores de risco. Com isso, é necessário elaborar ações estratégicas de valorização e cuidado docente para evitar a precarização já em andamento da profissão.
Para que isso seja feito, a princípio, é necessário garantir políticas já instituídas, como é o caso do tripé constitucional de valorização do magistério. As pesquisadoras Tamara de Lima e Yoshie Ussami Ferrari Leite analisam esse cenário no artigo Políticas de valorização do magistério no Brasil: sonho prometido e negado? publicado na revista Práxis Educativa, no Portal Educ@.
O estudo critica a contratação frequente de professores por meio de contratos por tempo limitado feita por escolas públicas, algo que deveria ser feito apenas em situações de emergência. O fenômeno gera precarização da profissão, pois contraria o primeiro elemento do tripé: a contratação efetiva e estável de docentes por meio de concursos públicos e títulos, previstos pela Constituição Federal de 1988 (art. 206, inciso V) e a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (art. 67, inciso I).
“A segmentação entre professores efetivos e contratados é bastante problemática no cotidiano escolar. Ela institui hierarquias informais, acarreta diferenças no sentimento de pertencimento à escola e na participação na tomada de decisões. Além disso, o professor contratado, em geral, fica submetido a condições precárias de trabalho, sem gozar de estabilidade no emprego e dos demais direitos trabalhistas restritos aos professores efetivos”, diz um trecho da pesquisa.
O segundo elemento apontado pelas autoras são o cumprimento do piso salarial e a equiparação do piso com o de outras profissões com formação equivalente. E por último, planos de carreira com aumento de remuneração conforme progressão na carreira. Ambos os elementos podem gerar maior atratividade pela profissão o que evitaria uma falta de professores no futuro, a qual pode gerar ainda mais sobrecarga aos profissionais em atuação.
Além dos temas do estudo, para o exercício pleno da profissão docente e a garantia de um ambiente educacional seguro e saudável, tanto para professores quanto para estudantes, é necessário repensar o clima escolar e as relações.
Para isso, é necessário evitar a lotação de turmas e garantir infraestrutura de qualidade das salas de aula, dos espaços de práticas esportivas, culturais e de descanso. Além disso, o modelo escolar deve ser reestruturado.
Segundo a pesquisa do Instituto Educbank, 64% dos estudantes consideram que a escola afeta a saúde mental. O índice formulado pelo estudo mostra que a partir do 8° ano até o fim do ensino médio, alunos lidam com um ambiente de violências leves naturalizadas, em que se tem um modelo escolar que prioriza resultados e vestibulares, mas negligencia o suporte emocional e relacional.
Esse cenário pode ser agravado quando estudantes se formam e vão para o ensino superior, período em que passarão por mudanças significativas em suas vidas.
Saúde mental de universitários
Começar uma graduação é um divisor de águas para pessoas que recentemente chegaram à vida adulta, mas o ambiente requer adaptação. Ao entrar na faculdade, o estilo de vida do estudante muda completamente devido às novas responsabilidades e cobranças. Fatores como quantidade de disciplinas, acúmulo de trabalhos, novas interações sociais, pressão da sociedade e da universidade por desempenho se juntam à insegurança de não conseguir ingressar no mercado de trabalho e sentimentos ligados à síndrome do impostor.
Diferentes pesquisas nos últimos anos mostram como as dinâmicas estudantis, da forma que foram estruturadas, podem prejudicar a saúde mental. Uma delas, desenvolvida pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), dentro do projeto Unilife-M, em 12 universidades brasileiras com 6.371 universitários, identificou que 54,4% dos estudantes apresentam sintomas de depressão.
A presença de uma instabilidade emocional nos espaços que deveriam ser exclusivos do aprendizado e acolhimento acende um alerta sobre a necessidade de políticas voltadas para o corpo estudantil e mobilização social.
Esses são fatores explorados pelo artigo Saúde mental na universidade: ações e intervenções voltadas para os estudantes, disponível na Educação em Revista, no Portal Educ@.
O estudo de autoria das pesquisadoras Lucélia Gomes, Heliane Leitao, Kyssia Santos e Susane Zanotti busca, de maneira qualitativa, identificar e analisar as ações referentes à saúde mental na Universidade Federal de Alagoas (Ufal) direcionadas aos alunos.
O artigo introduz um panorama geral do perfil de universitários por meio de pesquisas do Fórum Nacional De Pró-Reitores De Assuntos Comunitários E Estudantis (Fonaprace). Os dados obtidos demonstraram que houve um aumento de sintomas mentais de 2004 a 2018, mas também uma maior busca por atendimento, reflexo de políticas como psicoterapia como assistência oferecidas por algumas instituições e medidas implementadas pelo governo federal como o Programa de Apoio a Planos de Reestruturação e Expansão das Universidades Federais (Reuni) e Programa Nacional de Assistência Estudantil (Pnaes).
Reuni e Pnaes impulsionaram as ações assistenciais para o corpo estudantil. Algo percebido na Ufal. Em 2014, por meio de concurso público, psicólogos foram contratados pela universidade. Esses profissionais, além de atender os alunos, passaram a mobilizar a instituição por meio de eventos e campanhas (Janeiro Branco, Setembro Amarelo, Agosto Lilás etc.) com o objetivo de promover saúde mental com ações coletivas, de caráter interdisciplinar e intersetorial.
Outros setores da universidade promovem ações sobre o tema. A Faculdade de Nutrição realizou um projeto de extensão Sala de Cuidados, terapias alternativas, em 2016, o Centro de Educação realizou o Teatro do Oprimido na Saúde Mental em Maceió e a Faculdade de Enfermagem realizou a mesa-redonda no Setembro Amarelo, ambos em 2017, e estudantes debateram sobre saúde mental em evento em 2019.
O artigo enfatiza ao final a importância de diferentes setores abordarem o assunto, mas ressalta que as ações são fragmentadas e há pouca articulação coletiva entre os segmentos da universidade, ou seja, saúde mental não pode ser tratada isoladamente pela Psicologia, mas sim de forma ampla e contínua englobando diferentes núcleos como cultura, esporte e lazer.
Janeiro Branco e seus caminhos
Com o cenário vivido por docentes e estudantes, o Janeiro Branco lembra o por que a saúde mental não é uma pauta exclusiva da psicologia e sim da sociedade como um todo. Seu objetivo é combater estigmas, incentivar práticas preventivas em famílias, escolas, empresas e comunidades, além de buscar fortalecer redes de apoio, estimular políticas públicas e promover responsabilidade coletiva.
Para participar da campanha, o site do IDHJ indica diferentes formas de acordo para cada público. Dentre elas estão a implementação de ações oficiais da campanha, apoio financeiro ou institucional às atividades, apoio na divulgação das mensagens da campanha e mobilização local em sua cidade, local de estudo e trabalho.
O propósito é mostrar que cuidar da mente é essencial e deve ser priorizado, pois, com a mente estável, tudo ao redor “respira”, inclusive o ambiente de ensino, que constantemente é afetado por urgências das necessidades psicossociais humanas.
Neste ano, a estratégia adotada são os post-its, normalmente associados a pressa, cobrança e urgência, mas estão sendo utilizados como um lembrete de humanidade para indivíduos, instituições e comunidades.
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