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Sem planeta B: educação ambiental ganha protagonismo diante da emergência climática

Projetos desenvolvidos nos anos iniciais do ensino fundamental e em universidades mostram como a formação cidadã pode estimular práticas sustentáveis e fortalecer a conscientização coletiva

Brenda Teixeira

Publicado em:

03/06/2026 12:03:42

"‘Não temos planeta B’. É engraçadinho, mas parece que não está comovendo ninguém. [...] Por mais que eu seja capaz de imaginar um paraíso incrível trabalhado pela tecnologia, precisa ter rios, oxigênio, montanhas. E só a Terra produz isso. Tem que vir de dentro”, declarou Ailton Krenak, durante oEncontro Futuro Vivo, em agosto de 2025. 

A declaração do líder indígena e pensador brasileiro ressalta a urgência de uma mudança de perspectiva e ação, especialmente na semana do Dia Mundial do Meio Ambiente, celebrado anualmente em 5 de junho, data que convida à reflexão sobre a crise ambiental global.

O relatório  “Estado do Clima Global 2025”, divulgado pelaOrganização Meteorológica Mundial (OMM)em março deste ano, confirma um cenário de aquecimento acelerado. Segundo o documento, 2025 foi o ano em que o desequilíbrio energético da Terra atingiu o maior nível desde 1960 e as temperaturas registradas foram as mais altas sem a influência do El Niño. Além disso, o relatório aponta que 2024 foi o período de calor mais extremo, com uma elevação de 1,55 °C acima da média pré-industrial (1850–1900).  

Para os próximos anos, a OMM indica que há 86% de chance de que o período entre 2026 e 2030 supere os índices de 2024. António Guterres, secretário-geral da ONU, classificou a situação como uma emergência global: "O estado do clima global é de emergência. O planeta está sendo levado além de seus limites. Todos os principais indicadores estão em alerta máximo",afirmou à época do lançamento do relatório.

Educação Ambiental crítica: transformando consciência em ação

Diante da gravidade da crise climática, a educação ambiental se posiciona como um pilar estratégico para a mudança ao transcender, em sua vertente crítica, a mera transmissão de informações, buscando uma transformação profunda de valores e comportamentos.
Projetos como o ASA - Ações de Sensibilização Ambiental, desenvolvido no curso de Licenciatura em Ciências Biológicas do Instituto Federal do Paraná (IFPR), Campus Londrina, com apoio da Itaipu Parquetec, exemplificam a aplicação prática da educação ambiental. Coordenado pela professora Luciana Fernandes de Oliveira, o projeto estabelece uma ponte entre o Instituto, escolas municipais, como a Escola Municipal Neman Sahyun, a cooperativa Cooper Região e a comunidade local, com foco na educação ambiental crítica e na gestão de resíduos.

"Não podemos separar a responsabilidade do descarte; é uma questão de transformação social e cidadania. A educação ambiental crítica traz reflexões muito mais ricas ao juntar diferentes atores: cooperativa de reciclagem, universidade, escola e comunidade, promovendo uma sensibilização que transcende os muros da escola. É sobre mudar de atitude, relacionar o que consumo ao meu modo de vida e visão de mundo", destaca Luciana.
Entre seus objetivos técnicos, o ASA Comunidade visa implementar uma composteira piloto, incentivar a separação adequada de resíduos, valorizar a economia circular e solidária e desenvolver um protótipo de aplicativo educativo. A iniciativa, que ainda está em sua fase inicial, funciona como um laboratório de práticas colaborativas para testar estratégias de educação ambiental e descarte adequado que possam ser aprimoradas e, futuramente, replicadas em outros espaços, ampliando o alcance das ações desenvolvidas.

Nidia Regina de Lima, estudante de Licenciatura em Ciências Biológicas do IFPR e bolsista do projeto, enfatiza a importância dessa parceria para as escolas: "Existe uma vontade das escolas de realizarem ações, mas falta algo que as direcione, pois a realidade do dia a dia é muito complicada. A parceria com o IFPR facilita, cria um caminho para que as escolas possam seguir sozinhas no futuro, construindo uma cultura de tratamento de lixo. O trabalho dos catadores é invisibilizado. As pessoas não enxergam a realidade deles, não se preocupam muito. Queremos que conheçam o valor do que eles fazem, que não é simplesmente o caminhão que passa e leva."


Estudantes do Ensino Fundamental I fazem trabalhos com materiais recicláveis / Foto: Projeto ASA

Educação ambiental e formação docente 

Além dos impactos nas escolas e na comunidade, o projeto também tem desempenhado um papel importante na formação de futuros professores ao transformar interesses em perspectivas concretas de atuação profissional. 

Nidia destaca que a participação no projeto ampliou seus horizontes acadêmicos e reforçou seu desejo de seguir atuando na área. O envolvimento com as atividades de educação ambiental e manejo de rejeitos, iniciado ainda nos primeiros anos da graduação, foi decisivo para que encontrasse uma área de atuação com a qual se identifica. “Eu consegui enxergar um caminho para continuar estudando e trabalhando com isso depois da graduação. É algo que gera benefícios para toda a sociedade e que me faz querer continuar”, relata.

Na avaliação da coordenadora do projeto, experiências de extensão como o ASA Comunidade representam oportunidades valiosas na formação docente, justamente por aproximarem os estudantes das realidades sociais e dos desafios concretos enfrentados pelas comunidades. Luciana ressalta que o contato com diferentes organizações e grupos sociais amplia a compreensão dos futuros professores sobre o papel da educação ambiental e fortalece sua atuação profissional.

“Quando os estudantes participam de reuniões, dialogam com representantes de escolas, cooperativas e outras instituições do território, eles conhecem pessoas, trocam experiências e ampliam sua visão sobre sustentabilidade e atuação social. É um crescimento muito significativo para quem está em formação”, explica.

Ela observa, porém, que nem todos os estudantes conseguem participar de projetos dessa natureza, principalmente porque muitos conciliam estudo e trabalho. Por isso, um dos desafios atuais das licenciaturas é ampliar o acesso a experiências práticas e de extensão durante a formação. “Queremos que mais estudantes tenham oportunidades como essa, para que possam levar essa visão da educação ambiental para as escolas onde atuarão futuramente”, conclui.


Bolsistas do Projeto ASA são mediadores de atividades na Escola Municipal Neman Sahyun, em Londrina-PR / Foto: Projeto ASA 

Para além dos muros da universidade

O projeto busca não apenas ensinar sobre a separação de resíduos, mas também valorizar o trabalho dos catadores, fortalecendo sua dignidade e mostrando seu papel fundamental na sustentabilidade ambiental e social. A coordenadora complementa:
"A criança na escola aprende a separar o lixo, mas, quando entra em contato com um projeto mais amplo, ela conhece a realidade de uma pessoa que mudou sua trajetória de vida contribuindo com a cidade e a gestão de resíduos. Essa educação ambiental de fato sensibiliza e muda comportamentos, indo além dos muros da escola."

Uma abordagem distinta, mas com objetivos convergentes, é oEducom & Clima, do Núcleo de Comunicação e Educação (NCE) da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da Universidade de São Paulo (USP), em parceria com o Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA). Este projeto foca no uso da educomunicação, uma abordagem que estimula o diálogo, o pensamento crítico, a criatividade e a participação ativa, para abordar a emergência climática na educação básica. Seus objetivos incluem capacitar educadores, criar um banco de dados de iniciativas e desenvolver metodologias de ensino eficazes sobre mudanças climáticas.

Ambos os projetos, ASA Comunidade e Educom & Clima, demonstram a importância de levar a educação ambiental para além da teoria, focando na prática social e na formação de multiplicadores, sejam estudantes ou educadores. Enquanto o ASA se concentra na gestão de resíduos e economia solidária em um contexto territorial específico, o Educom & Clima aborda a metodologia de comunicação e engajamento crítico nas escolas de educação básica, mostrando a diversidade e complementaridade das abordagens necessárias.

Saiba mais

Kit Didático: As facetas da luta indígena contemporânea - Instituto Socioambiental 

Observatório do Clima


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