Territórios compartilhados: antologia reúne quadrinhos de artistas indígenas brasileiros
Coletânea lançada em dezembro de 2025 busca romper com o olhar do etnoentretenimento e do eurocentrismo
Jade Castilho
10/04/2026 13:00:00
Histórias em quadrinhos produzidas por artistas indígenas de diversas regiões do Brasil estão reunidas na antologiaTerritórios Compartilhados, lançada em dezembro de 2025, com o objetivo de romper com o olhar do etnoentretenimento e do eurocentrismo, presente nas narrativas colonizadas sobre os povos originários.
O trabalho foi organizado por Eá Borum Krenak, que também foi o responsável por uma das histórias presentes na edição. As histórias fogem do modelo tradicional e trazem uma variedade de estilos e narrativas, que seguem as tradições e ritmos dos povos indígenas.
Em entrevista à webrádio indígena Yandê, Krenak ressalta que, desde o século XIX, os indígenas estavam presentes nos quadrinhos, mas de uma maneira estereotipada e romantizada. Com esse trabalho, segundo o artista, é possível levar as histórias dos povos indígenas nas escolas dos diferentes territórios e, pela primeira vez, os jovens indígenas podem se identificar com o que estão lendo e vendo.
Confira os artistas participantes:
– “Os Sons da Mata”: Merremi Karão Jaguaribaras
A história traz uma arte abstrata e carregada de elementos da cosmovisão com os taowás, escrita visual do seu povo.
– “Djepotá”: Genilson Silva M’byá (roteiro) e Moara Tupinambá (arte)
Além de se inspirar nas narrativas tradicionais de Genilson Silva Guarani M’bya, a HQ Folk-Terror com traços expressionistas é a primeira com diálogos escritos em língua guarani.
– “Entre a Terra e o Espírito”: Marcela Poenna (roteiro) e TΔI (arte)
As artistas abordam no quadrinho abordam o respeito aos Encantados e o processo de retomada.
– “Acessibilindígena”: Siana Tentehar Guajajara (Idealizadora do coletivo) e Milene Correia (Colaboradora artística)
Coleção de tiras produzidas pelo Coletivo Acessibilindígena, que denunciam a invisibilidade das pessoas indígenas com deficiência.
– “Bady” (Retomada) – Nathalia Kariri (roteiro) e Caio Ananias (arte)
A HQ é uma versão em quadrinhos da poesia autobiográfica de Kariri, que conta a migração indígena nordestina para São Paulo.
– “Pö Pothick Jukanam” (As Seis Almas) – Eá Borum Krenak
O quadrinho faz um releitura de uma tradição oral, fazendo paralelos com a expulsão dos indígenas seu território tradicional pela mineração.
– “Tecnoanhang” – Anápuàka Tupinambá Hãhãhãe (roteiro) e Alexandra Tupinambá Krenak (arte)
História descrita como Indigenafuturismo, que funde elementos da ancestralidade e da ficção científica para projetar novos imaginários tecnológicos.
Um Manifesto de Resistência
A coletânea reafirma os saberes indígenas enquanto experiências vivas, que constroem mundos e não apropriações culturais genéricas de uma cultura ancestral. A edição, que conta com prefácio de Daniel Munduruku e design de Elza Keiko, que convida o leitor a "desaprender" visões coloniais para verdadeiramente apreciar a arte originária.
A obra foi publicada pelo hub de comunicação, design e gestão Keiko Lina e teve apoio do edital Rumos Itaú Cultural 2023-2024. A coletânea completa já está disponível no site do projeto.
Os lucros da venda da HQ, além de financiar os artistas participantes, serão revertidos para a produção de uma audiodescrição da obra, para torná-la acessível para pessoas com deficiência visual.
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