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Meninas e mulheres na literatura são tema de iniciativa premiada da licenciatura em Letras

Experiência formativa sobre obras escritas em língua italiana foi desenvolvida nas redes sociais para abordar linguagem, gênero, identidades e projetos decoloniais

22/11/22 | Por Luanne Caires

Cartaz com os dizeres: Prêmio Professor Rubens Murillo Marques 2022. Meninas e mulheres de origem africana e asiática na literatura em italiano. Projeto vencedor é da área de Letras. Fundação Carlos Chagas. A imagem tem fundo branco, com uma ondulação laranja na parte superior e outra em verde na parte inferior.

A formação de professores em uma abordagem intercultural e emancipadora é um dos caminhos para estimular práticas pedagógicas que respeitem diferenças entre modos de vida e promovam reflexões históricas, políticas e sociais. Utilizar a linguagem para uma formação com esses princípios foi o objetivo da iniciativa @meninasemulheresna literatura, coordenada pelas docentes Paula Freitas e Cristiane Landulfo nos cursos de licenciatura em Letras da Universidade Federal do Paraná (UFPR) e da Universidade Federal da Bahia (UFBA). Durante três meses, professoras e estudantes envolvidas na experiência formativa apresentaram ao público, por meio das redes sociais, obras escritas em língua italiana por mulheres de origem africana e asiática, com temas sobre gênero, migração, colonialidade e resistência. A iniciativa é uma das premiadas na 12ª edição do Prêmio Professor Rubens Murillo Marques

O @meninasemulheresnaliteratura surgiu com um projeto de extensão e reuniu alunas do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica (PIBIC) da UFBA e alunas do projeto Intercultura nas escolas: o italiano como língua e cultura na rede pública de ensino, vinculado ao Licenciar, programa da UFPR de apoio às licenciaturas. Ao trazer para o centro do debate produções italófonas de outros países que não a Itália, a experiência chama a atenção para conhecimentos historicamente invisibilizados e promove o diálogo com a lei 10.639/2003, que estabelece diretrizes para incluir a história e a cultura afro-brasileira no currículo oficial das escolas. 

Para a realização das atividades, as docentes selecionaram dez livros escritos por mulheres que narram os dilemas de uma vida em diáspora. Cada uma das dez licenciadas participantes da iniciativa foi responsável pela leitura de um dos livros e pela preparação de materiais e atividades sobre a obra. As produções são multimodais, utilizam o Instagram como plataforma principal, com a publicação de fotos, vídeos e áudios, e também incluem links para aulas síncronas no YouTube, grupos no WhatsApp, jogos, podcasts, trilhas sonoras e outras mídias. 

A ideia de desenvolver a iniciativa pelo Instagram veio das próprias alunas. Inicialmente preocupada com um formato para as redes sociais, Cristiane destaca a importância da participação das estudantes em todas as escolhas, em um processo horizontal que estimulou o engajamento e a fez sair da zona de conforto da sala de aula: “Foi muito bom ter saído da mesmice, de falar sempre para as mesmas pessoas. A gente conseguiu ultrapassar esse muro [da universidade] e entender que a rede social, embora seja um espaço hoje de muita violência, pode ser também um espaço de muita produção”.

As letras para todos

Expandir a sala de aula para as redes sociais, além de aumentar os vínculos com a comunidade externa à universidade, funcionou como uma vitrine para o curso de Licenciatura em Letras e, em especial, para o italiano. Paula conta que a literatura de mulheres adotada na experiência formativa não tinha tanta visibilidade no Brasil e que só uma das autoras selecionadas já havia sido traduzida para o português.

O reconhecimento de novas vozes na língua italiana, por uma perspectiva que discute não apenas aspectos clássicos da linguagem, mas também realidades contemporâneas, racismo, africanidades e violência de gênero, é uma maneira de aumentar o repertório dos futuros professores e mostrar novas possibilidades que o curso de Letras pode oferecer.

Cristiane complementa que os futuros professores precisam ter consciência de que a linguagem é prática social, não só um conjunto de estruturas: “Eles vão agir na educação básica e podem ser propulsores de preconceitos ou alguém que vai transformar e conscientizar as pessoas. E tudo depende da formação docente. O material didático pode ser excelente, mas, se o professor não tem formação para trabalhar com ele de forma crítica, não adianta. O nosso maior recurso em termos de educação sempre vai ser o professor”.  

Ideias que cruzam oceanos 

A experiência formativa, que tem como base teorias linguísticas decoloniais, interculturais e transculturais, assim como técnicas de ensino de línguas como a abordagem por tarefas e a abordagem multimodal, ganhou reconhecimento também internacionalmente. Após vencer o Prêmio Professor Rubens Murillo Marques, o @meninasemulheresnaliteratura foi apresentado por Paula na conferência internacional Afroeuropeans 2022, realizada em Bruxelas, Bélgica, em setembro. Para a docente, o projeto e o Prêmio mudaram a vida dela, pelo contato com outras redes de pesquisadores e sobretudo na construção de sua própria identidade enquanto professora e mulher negra. 

Cristiane também comenta a importância do Prêmio como um reconhecimento do trabalho docente: “É um trabalho muito solitário e cansativo, muitas vezes. E quem faz docência no Brasil, especialmente nesses últimos quatro anos, pagou um preço muito caro. Então [com o Prêmio], a gente lembra que o que a gente faz tem sentido, que estamos fazendo a coisa certa”. 

Saiba mais:
Cerimônia de Premiação da 12ª edição do Prêmio Professor Rubens Murillo Marques
Evento contará com a presença das docentes coordenadoras da experiência formativa “@meninasemulheresnaliteratura: escrita diaspórica em língua italiana, conexão de redes, de saberes e formação docente”, que compartilharão detalhes sobre o desenvolvimento da iniciativa.
Quando: 25 de novembro, às 10 horas
Onde: Canal da Fundação Carlos Chagas no YouTube

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