Entre a fé e o conhecimento: como ensinar sobre religião nas escolas
Especialista explica o papel do Ensino Religioso, da formação docente e do currículo na construção de uma educação plural
Agosto é marcado, em diferentes regiões do Brasil, por festas que reúnem fé, cultura, memória e identidade. Oficialmente, noCalendário de Eventos do Ministério do Turismo, só para este mês, são mais de 100 eventos cadastrados nas categorias religião e cultura, em diversas regiões do país. Em Montes Claros, no norte de Minas Gerais, por exemplo, as tradicionais Festas de Agosto reúnemternos de catopês, marujos e caboclinhosem homenagens a Nossa Senhora do Rosário, São Benedito e ao Divino Espírito Santo. A manifestação, que se aproxima de dois séculos de história, evidencia como diferentes tradições religiosas e culturais podem se encontrar em uma mesma celebração.
Mais do que manifestações de fé, festas como essa também revelam a pluralidade que atravessa a formação cultural brasileira. Se a diversidade religiosa está presente nas ruas, nas festas, na música, na arte e na cultura brasileira, como ela é apresentada dentro da escola?
A pergunta leva a uma discussão que vai além da presença ou não do Ensino Religioso no currículo. Envolve a formação dos professores, a maneira como diferentes tradições são apresentadas aos estudantes e o papel da comunidade escolar na construção de um ambiente em que diferentes crenças — e também a ausência delas — possam ser reconhecidas e respeitadas.
Para a professora e pesquisadoraElisa Rodrigues, da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) e especialista em Ciência da Religião, a escola pode ser justamente um espaço de conhecimento e reflexão sobre o fenômeno religioso. Mas, para isso, é preciso fazer uma distinção fundamental:ensinar religião na escola não é o mesmo que ensinar “sobre” religião.
“Uma coisa é você ensinar religião na escola e outra coisa é você ensinar sobre religião na escola”, explica Elisa.
A diferença, segundo a pesquisadora, está na perspectiva adotada em sala de aula. Enquanto o ensino de uma religião pode partir de pressupostos e crenças específicas, falar sobre religião exige uma abordagem fundamentada no conhecimento e na compreensão do fenômeno religioso. A Ciência da Religião pode oferecer esse suporte por meio de referências da antropologia, história, psicologia, sociologia e filosofia.
“Na Ciência da Religião, a gente vai mobilizar os referenciais da antropologia, da história, da psicologia, da sociologia, da filosofia para falar do fenômeno religioso”, afirma.
Essa abordagem também permite compreender que a religião não está restrita aos espaços de culto. Ela atravessa diferentes dimensões da vida social e cultural. Segundo Elisa, elementos religiosos estão presentes na arquitetura, na música, nas vestimentas, nas imagens e em diferentes manifestações que ajudam a constituir a cultura brasileira.
Um currículo que reconheça a diversidade
Pensar a diversidade religiosa na escola também exige olhar para a formação histórica do currículo brasileiro. Elisa afirma que a educação carrega um legado colonial que contribuiu para colocar determinados conhecimentos em uma posição de maior legitimidade em relação aos saberes de povos indígenas e de matrizes africanas.
“Os nossos currículos também são assim, são currículos colonizados por saberes que se entendem mais legítimos do que os saberes dos povos originários”, afirma.
Segundo ela, mudanças vêm sendo construídas desde aLei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB), de 1996. Entre os marcos desse processo está aLei nº 10.639/2003, que alterou a LDB e tornou obrigatório, no ensino fundamental e médio, o ensino de História e Cultura Afro-Brasileira. A legislação determina ainda que esses conteúdos sejam trabalhados em todo o currículo escolar, especialmente nas áreas de Educação Artística, Literatura e História Brasileiras.
Posteriormente, alegislação também passou a prever a inclusão da história e da cultura indígena no ensino. Esses marcos contribuem para ampliar a presença de diferentes saberes e grupos sociais no currículo escolar.
No caso específico do Ensino Religioso, Elisa destaca uma mudança de perspectiva ocorrida a partir da LDB: o deslocamento de um modelo confessional e proselitista para uma proposta que contemple a diversidade de crenças.
“Todas as religiões que constituem um campo religioso brasileiro devem ser contempladas no Ensino Religioso”, afirma. Para ela, o fenômeno religioso deve ser compreendido não como uma defesa de determinada fé, mas como uma forma de garantir o direito de pessoas religiosas e não religiosas se expressarem.
Essa perspectiva também aparece em sua obraEnsino religioso reflexivo: uma proposta a partir da Ciência da Religião, cuja segunda edição foi publicada em 2024. O livro aborda a trajetória do Ensino Religioso no Brasil, diferentes modelos de ensino, seus fundamentos teóricos e a relação entre a Ciência da Religião e a prática pedagógica. A autora também defende um Ensino Religioso reflexivo voltado à liberdade de opinião, informação e decisão, além da construção de uma consciência sobre o direito de pensar e ser diferente.
Conhecer para não reproduzir estereótipos
Se a diversidade deve estar presente no currículo, outro desafio aparece: como professores podem abordar diferentes crenças sem reforçar preconceitos ou criar hierarquias entre as tradições?
Para Elisa, a formação docente é uma questão central. Ela considera que os professores possuem uma responsabilidade fundamental na construção de um ensino plural e democrático, mas alerta que nem sempre recebem preparo suficiente para trabalhar com a diversidade religiosa.
“A gente imputa à classe docente uma responsabilidade muito grande. E é, de fato, uma responsabilidade fundamental essa de fazer um ensino que seja plural, democrático e que consolide a laicidade do Estado. Mas a gente nem sempre tem os meios para dar uma formação adequada para essa classe”, afirma.
Sem preparo específico, o professor pode acabar recorrendo à própria experiência religiosa para interpretar outras tradições, contribuindo para a reprodução de conceitos e preconceitos. Por isso, a pessoa educadora precisa de ferramentas teóricas para compreender diferentes manifestações religiosas sem partir da perspectiva de uma única crença.
Esse preparo também pode contribuir para que a escola lide com situações de intolerância e racismo religioso. Ainda ocorrem casos de estudantes ligados a religiões afro-brasileiras que sofrem hostilização por seus símbolos, vestimentas e práticas.
Nesse contexto, conhecer a religião do outro não significa concordar com ela, mas compreender seu significado para quem a pratica.
“Não me cabe julgar, não me cabe disputar. Me cabe entender que para ele é importante, para ela é importante, assim como eu tenho a minha, ou posso não ter a minha também”, diz Elisa.
Da sala de aula para toda a comunidade escolar
O respeito à diversidade religiosa, porém, não precisa ficar restrito à disciplina de Ensino Religioso. A escola como um todo pode criar espaços para que diferentes formas de fé, cultura e modos de compreender o mundo sejam reconhecidos.
Essa abordagem pode atravessar diferentes áreas do conhecimento e atividades pedagógicas. Em História, por exemplo, as religiões podem ser compreendidas a partir de seus contextos históricos e culturais. Em Artes, podem aparecer por meio da música, da dança e das manifestações populares. Até mesmo disciplinas como Matemática podem incorporar elementos culturais de diferentes tradições em atividades e jogos, sem transformar o conteúdo em ensino religioso confessional.
A proposta é que o estudante encontre na escola um espaço para conhecer aquilo que é diferente de sua própria experiência. Isso também significa reconhecer que nem todos os alunos possuem uma religião e que a ausência de crença faz parte da diversidade presente no ambiente escolar.
Mais do que apresentar uma lista de religiões, trata-se de desenvolver uma postura de diálogo e compreensão diante das diferenças.
“A contribuição que o Ensino Religioso tem é uma contribuição que visa a consolidação de uma formação humana, de uma cultura de paz, de compreensão das alteridades religiosas, das diversidades religiosas”, afirma.
Saiba mais
Resenha do livro Ensino religioso reflexivo: uma proposta a partir da Ciência da Religião. 2. ed.
Catopês, caboclinhos e marujadas: conheça as tradicionais festas de agosto do Norte de Minas
Manifestações Culturais Negras
SACRILEGENS - Revista Discente do Programa de Pós-graduação em Ciência da Religião da UFJF