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Estudo mapeia o que pensam os estudantes brasileiros

Pesquisa do SoU_Ciência, da Unifesp, reúne múltiplas perspectivas da juventude em idade universitária

Autor- Guilbert Inácio,Fluxo Educação -12/08/2026 12:04:19

O estudoQuem são e o que pensam os jovens brasileiros: material para estimular o debate em rodas de conversareúne dados de uma pesquisa nacional sobre juventude e analisa, a partir de temas sócio demográficos, como local, idade, gênero, raça/cor, classe social, escolaridade, religião e inserção no mundo do trabalho, como esses marcadores influenciam oportunidades, desigualdades e trajetórias de vida de estudantes do Ensino Médio e jovens em idade universitária.

Além disso, o material traz algumas propostas de como estimular, de forma coletiva e crítica, esses fatores no debate educacional. Para isso, o documento reúne um bloco de perguntas guiadas que podem ser usadas em rodas de conversas com esse público. As questões não têm “respostas certas” e têm como único objetivo fomentar a escuta e a participação.

A pesquisa foi elaborada peloCentro de Estudos Sociedade, Universidade e Ciência (SoU_Ciência), órgão complementar daUniversidade Federal de São Paulo (Unifesp), em parceria com oInstituto IDEIAe o movimento jovemFogo no Pavio. Segundo aProfa. Dra. Vanessa Moreira Sígolo, pesquisadora do SoU_Ciência, a ideia parte da necessidade de ouvir e conhecer os nossos jovens para construir políticas públicas que consigam solucionar os problemas.

Para elaboração, foram entrevistados 1.034 jovens (18 a 27 anos) em todas as regiões do país e os dados foram ponderados com base nocenso mais recente do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Acesso à universidade e ensino a distância

Um dos pontos observados no material foi que 58% dos jovens atribuem grande valor ao ensino superior, mas também relatam que há inúmeras barreiras para acessá-lo e permanecer nele, como renda, processos de vestibulares e outras prioridades. Segundo a pesquisadora, é necessário ampliar o acesso às universidades, sobretudo o ensino superior público. Além disso, é preciso seguir fortalecendo as políticas de cotas juntamente com políticas de permanência estudantil. 

No recorte de gênero, as mulheres são as mais interessadas na graduação (50,9%, contra 38,9% dos homens), mas são as que mais lidam com obstáculos, principalmente relacionados com aEconomia do Cuidado, que historicamente sustenta parte do sistema capitalista. “A gente precisa também de políticas consistentes e sistemas públicos de cuidado para permitir que as jovens mulheres ingressem, tenham acesso e permaneçam no ensino superior”, comenta Vanessa.

Com os obstáculos, o ensino a distância (EaD) surge como alternativa para conciliar casa, trabalho e estudo, mas as jovens também são as que mais criticam a precarização do EaD. Para 46,77% das mulheres ouvidas pela pesquisa, o modelo permite estudar em casa enquanto fazem tarefas do dia a dia.  Em relação aos homens, esse percentual é de 21,57%. Entretanto, 27,14% das mulheres apontam falta de aulas práticas, contra apenas 3,85% dos homens. Ao relacionar os dados com a economia do cuidado, é possível observar que quem mais precisa do EaD é quem mais identifica as limitações do modelo.

No geral, 59,8% concordam que “cursos EaD são inferiores aos presenciais”, sendo que 53% manifestam poder cursar universidades (públicas e privadas) com cursos presenciais. A pesquisadora explica que o problema não é a tecnologia, e sim a mercantilização da educação: “cursos EaD, sem nenhuma regulamentação, controle ou fiscalização, têm virado fábricas de diplomas com baixa qualidade e, no fim os jovens, estão reféns disso”, afirma Vanessa. 

Ela conclui que precisamosavançar na regulamentação, na fiscalização com avaliações rigorosas, no controle de qualidade, na valorização de professores, na interação com os alunos e na vivência de estágio do modelo EaD. Outro ponto, é fomentar políticas efetivas que garantam o acesso a cursos presenciais, sobretudo de jovens mulheres.

Saúde mental

Um dado de alerta que apareceu nos resultados do estudo está relacionado com saúde mental. Entre os jovens entrevistados, 38% deles citaram ansiedade e depressão como a maior preocupação. O percentual registrado é superior ao que foi encontrado em 2021, na pesquisa anterior do SoU_Ciência, quando a maior preocupação era desemprego/trabalho precário (44%), e a saúde mental aparecia em terceiro lugar, com 32% das respostas. Esse fator aparece em praticamente todos os grupos políticos, religiosos, de gênero, de raça/cor, de renda, de diferentes níveis de escolaridade e regiões do país. O vício em celular, redes sociais e games teve alta de 41% entre 2021 e 2024. 

Vanessa Sígolo explica que, atualmente, nós temos estudos e debates relacionados à crise e ao sofrimento mental, e os dados revelam um pedido de socorro dos jovens e uma pauta urgente que a sociedade tem que tratar. Além disso, ela destaca aansiedade climática, conceito relacionado a como as pessoas estão lidando com as incertezas das mudanças do clima no meio ambiente. “As universidades, as escolas e as instituições precisam dar relevância para isso, com políticas adequadas, dando prioridade à escuta dos jovens, ao acolhimento e a redes de apoio relacionadas à saúde mental”, comenta.

A importância da opinião das juventudes

Vanessa comenta que o estudo mostrou algo que parece óbvio no senso comum, mas a pesquisa trouxe dados concretos para serem analisados, como o papel da religião de influenciar a opinião da juventude. Algumas surpresas foram como esse público se declara politicamente e como projetam a vida profissional. 

De acordo com o material, muitos almejam empreender, o que a pesquisadora liga à precarização do mundo do trabalho. O estudo confere destaque para alguns jovens que sonham em empreender coletivamente: “empreender cooperativamente pode ser um embrião de como imaginar caminhos e perspectivas mais solidárias e coletivas nesse processo, talvez de um novo mundo do trabalho, que não é esse que a gente conhece”, relata Vanessa.

Além disso, a pesquisadora observou que o estudo mostra que a juventude segue valorizando a educação para construção da vida profissional. O ensino superior tem sido tratado por esse público como um projeto, que muitas vezes é adiado pelas dificuldades e pela falta de incentivo para colocar esse projeto em prática. 

Por fim, a  pesquisa deixa como mensagem para gestores, escolas e universidades que sigam ampliando o acesso e políticas estudantis justas de permanência. Além disso, escutem as críticas da juventude e ampliem espaços de diálogo, como as cotas que permitiram as universidades serem mais diversas e democráticas: “A universidade tem que avançar na sua reinvenção democrática e seguir o caminho da construção daquilo que o Darcy Ribeiro chamou de ‘universidade necessária”, finaliza a pesquisadora.

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