Divulgação Científica

www.fcc.org.br

Eu, o outro e nós: a relação com a natureza na formação da Educação Infantil

Marisa Vasconcelos Ferreira, pesquisadora da Fundação Carlos Chagas, destaca relevância da vivência de bebês e crianças na natureza

Autor- Jade Castilho,Fluxo Educação -25/08/2026 09:47:06

“Temos que ter a coragem de ouvir a Terra”. Ailton Krenak, liderança indígena e imortal da Academia Brasileira de Letras (ABL), aborda, em suas obras e entrevistas, a necessidade de estabelecermos, enquanto seres humanos, um envolvimento com o corpo da Terra, a fim de produzir novos afetos e sentidos.

Essa vivência  pode e, deve, ser promovida  e incentivada desde a primeira infância. É o que afirma a pesquisadora doDepartamento de Pesquisas Educacionaisda Fundação Carlos Chagas (DPE/FCC),Marisa Vasconcelos Ferreira

Garantir o acesso à creche e à pré-escola de qualidade significa, nesse sentido, oferecer oportunidades desde os primeiros anos de vida, que fortalecem aprendizagens diversas e o desenvolvimento na sua integralidade, o que relaciona-se, dentre muitos aspectos do projeto pedagógico, possibilitar vivências das crianças, desde os bebês, em ambientes nos quais se possa ampliar o contato com a natureza, incentivar o encantamento, a indagação, o cuidado e o conhecimento sobre os fenômenos naturais e a biodiversidade. 

Acima de tudo, a Educação Infantil também tem um compromisso com a formação de novas formas de sociabilidade e subjetividade, que possam atuar na superação das desigualdades, inclusive ambientais. 

Em agosto, celebra-se o Mês da Primeira Infância, momento em que se reforça a importância das políticas públicas e do compromisso coletivo com o direito de toda criança a uma educação de qualidade desde o começo da vida.

Em entrevista, Marisa pontua a relevância dos espaços externos e internos das escolas de Educação Infantil (EI) promoverem o contato de bebês e crianças com a natureza em suas mais diversas formas. 

No contexto atual de emergência climática, é fundamental possibilitar uma Educação Infantil, que, efetivamente, contribua para vivências significativas da criança na e sobre a natureza, especialmente alinhada à perspectiva do pertencimento, da vida coletiva e da consciência e cuidado do meio ambiente.

“Os Parâmetros de Qualidade indicam a necessidade de que as crianças, diariamente, vão para os espaços externos das escolas, que elas fiquem menos confinadas às salas de referência. Mas o que a gente observa é que os espaços externos ainda são muito pouco preparados para receber as crianças”, comenta a pesquisadora. 

Qualidade dos espaços externos na Educação Infantil

Segundo dados dorelatório do Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb) da Educação Infantil de 2023, há uma percepção por parte de diretores sobre a inadequação quanto às condições dos espaços externos das escolas de EI, considerando as dimensões de área sombreada, área externa coberta, vegetação e jardim e horta. 

Dados do Censo Escolar, em 2023, apontam que 64% das escolas de EI no Brasil não têm parques infantis. Para as pessoas gestoras escolares desses estados, mais da metade das turmas avaliadas não dispõem de condições minimamente adequadas em três ou mais dos componentes avaliados, comprometendo a oferta de oportunidades para brincar ao ar livre — aspecto fundamental para o desenvolvimento motor, socioemocional e cognitivo das crianças e demanda colocada no art. 21 das Diretrizes Operacionais Nacionais de Qualidade e Equidade para a Educação Infantil (Resolução CNE/CEB N° 1 de 2024).

Dados relatados no relatório do SAEB refletem a ausência de espaços externos adequados para o desenvolvimento de atividades fora das salas de referência na Educação Infantil, como afirma Marisa:

“Existem escolas em que há pouca ou nenhuma área sombreada. Então, muitas vezes, por exemplo, em lugares mais quentes, as crianças acessam muito pouco a área externa da escola, porque logo está muito quente. Ou também, são espaços, às vezes, que têm muitos brinquedos, como escorregador e balanço, em mau estado de conservação, ou muitas vezes inadequado para a faixa etária das crianças. Há ainda uma tendência a se acimentar o chão, retirando a possibilidade do contato das crianças com chão de terra, areia e grama. A pouca presença de árvores, plantas e outros elementos naturais também é observada”.

Além de se pensar nos espaços externos, a pesquisadora comenta sobre a importância dos espaços internos também possuírem elementos da natureza, como vasos de plantas, livros sobre natureza, sobre a vida das diferentes espécies animais, imagens reais espalhadas pelas salas e pela escola, materiais de largo alcance (sementes, pedras, toquinhos de madeira etc.), recursos que, junto com a interação das professoras, ampliam as aprendizagens e a construção de conhecimentos, mobilizando os diferentes campos de experiências. 

Ainda, priorizar mobiliário e equipamentos de madeira e outros materiais naturais, evita a presença predominante de plástico. “Estar em um espaço mais naturalizado, sentir, relaxar, experimentar, observar essa natureza, conhecer plantas, árvores, jardins, contemplar e vivenciar é algo fundamental nesse movimento. Parece pouco, frente ao desafio educacional que temos nos dias de hoje. Mas, é um primeiro passo para trazer para dentro das escolas um pouco de biodiversidade que está profundamente ausente desses espaços. Junto com isso o compromisso ético e político de ressignificar e reconstruir a relação do eu e do nós, porque, no limite, é isso, só no coletivo conseguimos “inventar” uma nova forma de viver menos predatória na Terra.”, reforça Marisa. 

Avaliação de contexto 

Marisa, em conjunto com a pesquisadoraEliana Bheringe a assistente de pesquisaMariama Palhares Pucci, ambas do DPE/FCC, trabalham na construção e de um instrumento de avaliação de contexto intituladooportunidades de aprendizagem educativo-pedagógicas para bebês e crianças (OEPE - EI)

O estudo, em andamento, visa subsidiar metodologias de avaliação dos contextos da Educação Infantil, como forma de contribuir com o  aprimoramento de políticas educacionais para a EI. Um dos aspectos observados pelo instrumento de avaliação, já aplicado em fase de teste em municípios dos estados de São Paulo, Santa Catarina e Amazonas e Ceará, é, justamente, a presença e uso de recursos relacionados às temáticas de biodiversidade e a sustentabilidade  da terra. 

“Quando estamos em campo fazendo observações das turmas de crianças, é possível perceber que as crianças ficam mais relaxadas, vivem experiências diferentes, de interação com os adultos e com pares em ambientes externos que possibilitam essa vivência na e com a natureza”, finaliza. 

Para Marisa, esse debate convoca a  EI a pensar no seu papel sócio pedagógico e ético diante do momento social atual, de ressignificar uma forma  de compreensão e vivência na natureza e de preocupação com a sustentabilidade em meio à emergência climática. 

“Diz respeito à gente se reeducar, se re-formar, no sentido da nossa formação, que coloca a natureza em um outro lugar, não um lugar de exploração, mas um lugar de pertencimento, de identidade conectada com esses elementos e que precisa começar desde a primeira infância, desde a educação infantil”, completa a pesquisadora. 

Saiba mais

Instituto Alana: Território do Brincar

Urban95

Portal Lunetas

Voltar