Mitos, tensões e desigualdades na escrita acadêmica são tema de resenha publicada pela Fundação Carlos Chagas
O texto recomenda a leitura do livro “O mal-estar na escrita acadêmica: um problema político” e debate os desafios da pesquisa nos espaços universitários
Caracterizada pelo uso de linguagem técnica, impessoalidade, fundamentação em evidências e rigor nas referências bibliográficas, a escrita acadêmica pode representar grandes desafios para muitos pesquisadores.
A resenha de André William Alves de Assis, intituladaMitos, tensões e desigualdades na escrita acadêmica, aborda a obra de Robson Cruz (2024),O mal-estar na escrita acadêmica: Um problema político.
Publicada em Cadernos de Pesquisa, revista da Fundação Carlos Chagas, a resenha aborda como o mal-estar na escrita acadêmica é uma questão estrutural e política, resultado da reprodução de ideologias elitistas que definem quem pode ou não escrever na universidade brasileira.
As dificuldades, segundo o autor, não são falhas individuais, mas consequência de um sistema que naturaliza exigências e ignora condições desiguais de formação. O livro, dividido em seis partes, articula os desafios e as influências das desigualdades sociais nesse processo de pesquisa acadêmica.
Na primeira parte, a obra apresenta o sofrimento gerado pelas exigências da escrita, ilustrado pela narrativa de uma estudante com bloqueio, e argumenta que a escrita opera como um filtro simbólico que produz sentimentos negativos e exclusão.
A segunda parte critica a concepção da escrita como uma habilidade natural ou inata, o que transforma a dificuldade em fracasso pessoal. O domínio da escrita acadêmica exige mediações específicas, não sendo garantido apenas pela alfabetização. No terceiro capítulo, o autor mobiliza a ideia do romantismo como ideologia da escrita, em que analisa como a ideologia romântica valoriza o dom, a espontaneidade e a genialidade da escrita, proposição que atua como dispositivo de exclusão, desqualificando a escrita como prática ensinável e gerando insegurança.
Em seguida, a quarta parte da obra aborda o realismo como ideologia da escrita, em que questiona a busca por um modelo único, correto e tecnicamente preciso de escrita e produção acadêmica, fatores que geram paralisia, perfeccionismo e valorizam a forma em detrimento do conteúdo.
As partes finais do livro mencionam a influência de modelos hegemônicos de escrita acadêmica, vindo do Norte Global, como uma alienação simbólica, que apaga marcadores sociais da diferença e de desigualdades locais.
Por fim, o autor aprofunda a análise ao aplicar uma lente no contexto brasileiro, a partir das desigualdades históricas e estruturais brasileiras, que amplificam as tensões. O autor destaca o preconceito linguístico e a associação da escrita ao prestígio como agravantes.
A obra de Cruz, segundo a resenha, busca reposicionar a escrita como prática política e construção situada, cujo enfrentamento exige a revisão ética e política das práticas universitárias.
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