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Muito além das fórmulas: experiência premiada pela FCC propõe escuta amorosa no ensino de Física

Experiência realizada na Universidade de São Paulo desenvolve disciplina com abordagem histórico-filosófica e estimula o diálogo sobre as leituras de mundo dos estudantes

Autor- Jade Castilho,Prêmio Prof. Rubens Murillo Marques -04/11/2026 10:11:08

Quem fez o carro? Quem fez os prédios? Quem fez a Lua? Quem fez as montanhas? Foi a partir dessas e de outras curiosidades pelas viagens dos astronautas que Cristiano Mattos, professor da Universidade de São Paulo (USP), se interessou pela formação em Física. 

Reconhecido pela16ª edição do Prêmio Professor Rubens Murillo Marques, o docente desenvolveu uma experiência formativa com estudantes do curso de Licenciatura em Física na universidade que propõe os estudos da área para muito além da “decoreba” de fórmulas e cálculos matemáticos. 

A experiência formativa consiste na proposta da disciplinaCiência, Educação e Linguagem (CEL), criada e antecipada para o primeiro ano da Licenciatura, com o objetivo de aproximar os discentes das questões educacionais logo no início de sua formação e de fornecer critérios para que avaliem a própria trajetória formativa docente. 

Para combater a redução da Física a uma técnica estritamente matemática, a disciplina CEL não está focada em cálculos e adota uma abordagem histórico-filosófica centrada em conceitos fundamentais e na pedagogia da escuta amorosa. 

Essa abordagem, segundo Cristiano, valida o conhecimento prévio dos estudantes, suas leituras de mundo, e estimula o diálogo entre saberes cotidianos e acadêmicos, a partir de perguntas instigantes, como a da própria existência da realidade. 

Segundo Cristiano, essa abordagem também favorece a construção de vínculos de amizade entre os estudantes, que passam a compartilhar interesses e inquietações sobre questões históricas, filosóficas e educacionais relacionadas à Física. Dessa forma, a disciplina contribui para a formação de grupos de estudo e redes de colaboração, estimulando relações acadêmicas que ultrapassam a convivência social e se constituem em torno de interesses comuns sobre a ciência e seu ensino.

“A gente foi descobrindo que, quanto mais cedo o sujeito entra em contato com as questões da educação em ciências, mais ele percebe o significado da profissão, o sentido que a física tem para a profissão de professor”, afirma. 

A escuta amorosa e a desconstrução da verdade absoluta na ciência

Quando um estudante entra na sala de aula para uma disciplina de Física, na maioria das vezes, ele imagina uma aula expositiva, com inúmeras fórmulas para decorar e exercícios de memorização. Segundo Cristiano, esse é um relato frequente de estudantes do curso de Física, Matemática e Química, por exemplo. 

Além disso, o docente discute a crença epistemológica, frequente entre os ingressantes, de que a Física representa uma verdade absoluta e inquestionável, o que pode, futuramente, gerar uma postura professoral dogmática que desconsidera os saberes discentes. 

Para contrapor essa visão, o docente enfatiza, inspirado em Paulo Freire,  a importância da escuta amorosa, um exercício central na formação política e pedagógica, que permite acolher as crenças e o repertório prévio dos estudantes para estabelecer relações com o conhecimento científico, delimitando o domínio de validade da ciência sem desqualificá-la.

Nesse sentido, a proposta é estimular os estudantes de licenciatura a refletirem sobre questões fundamentais da Física, privilegiando a compreensão conceitual e a reflexão crítica sobre a construção do conhecimento científico, em vez de restringir a aprendizagem à realização de cálculos e à aplicação de fórmulas. 

“Isso é uma abordagem histórico-filosófica da ciência, e o conceito central da CEL é o da escuta amorosa, ou seja, saber que o sujeito tem conhecimento prévio. Esse conhecimento prévio não necessariamente tem fundamentação científica, mas ele é válido do ponto de vista dos sentidos que a pessoa atribui ao mundo”, complementa Cristiano. 

Desse modo, a disciplina traz aos sujeitos e sujeitas a capacidade de avaliar a sua própria trajetória como estudante e o tipo de educação e de experiência formativa que está tendo e aprendendo para o futuro. 

Desafios da profissão docente

De acordo com a Sociedade Brasileira de Física, o curso de Licenciatura na área registra, aproximadamente,70% de evasão entre os estudantes ingressantes na graduação. Para a organização, o fenômeno é impulsionado por dificuldades nas disciplinas básicas, como cálculo, pela falta de identificação com a carreira, pelos baixos salários na rede pública e pela necessidade de conciliar trabalho e estudo. 

Cristiano também relata como a CEL, uma disciplina proposta na grade curricular logo no início do curso de licenciatura, promove e impulsiona essas discussões com a turma de ingressantes. 

“Quando você, em CEL, permite que os sujeitos se manifestem a partir das suas posições discursivas ligadas à sua história de vida, eles simplesmente passam a ver a possibilidade de outras posições que não a da ciência. E aí, a escuta amorosa se mostra um exercício fundamental para o professor”, reforça o docente. 

Formação de novos professores

Cristiano Mattos expressa, com grande alegria e emoção, a premiação da experiência formativa da disciplina CEL, obtida após ter ficado entre os dez finalistas do Prêmio Professor Rubens Murillo Marques no ano anterior. 

O docente ressalta a importância dessa validação externa para o curso e para os estudantes, diante das disputas e resistências internas da universidade, evidenciando o esforço contínuo de reflexão e de melhoria na relação entre a academia e o mundo escolar.

“É uma das superações do muro da escola, a ideia de um reconhecimento externo, que pensa justamente nessa perspectiva de formação de novos professores, olhando para as licenciaturas, que têm tantas questões e tantos desafios”, finaliza Cristiano. 

Acerimônia de premiaçãoserá realizada no dia 27 de novembro (sexta-feira), às 10h, com transmissão ao vivo nocanal da FCC noYouTube. 

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