Na beira do rio: tese analisa jogos de linguagem de estudantes ribeirinhos como formas de resistência no Rio Xingu
Pesquisa vencedora do Prêmio Capes de Tese em 2022 reconhece protagonismo da escola e seu papel fundamental na vida das famílias dessas comunidades
“Nasci e fui criado nas margens do rio”. Marcos Formigosa, professor na Universidade Federal do Pará (UFPA), se define para apresentar a temática de sua tese de doutorado, reconhecida na área de Ensino pelo Prêmio Capes de Tese de 2022.
Nas margens do rio, a pesquisa de Marcos analisa os jogos de linguagem expressos por um grupo de onze estudantes ribeirinhos de uma escola no município de Altamira, no Pará, constituem-se como formas de resistência às influências da Usina Hidrelétrica de Belo Monte (UHEBM).
IntituladoAs etnomatemáticas de alunos ribeirinhos do rio Xingu: jogos de linguagem e formas de resistência, o estudo surge a partir da formação inicial em Matemática e da sua trajetória vinculada aos rios. A construção da hidrelétrica causou deslocamentos nas comunidades ribeirinhas, provocando rupturas e remoções compulsórias de famílias na região, além de romper com tradições pesqueiras.
A tese de Marcos documentou como essas mudanças impactaram a estrutura familiar e o cotidiano escolar. Por meio de um estudo etnográfico e relatos em um diário de bordo, o pesquisador detalhou seu percurso e imersão na comunidade ribeirinha em Altamira e pode relatar, posteriormente na tese, o acompanhamento de atividades desenvolvidas no local e materiais produzidos pelas crianças em uma cartografia social.
Entre uma das observações encontradas durante a pesquisa, Marcos destaca que as crianças frequentemente associavam a escassez de peixes grandes na região à construção da barragem de Belo Monte.
A pesquisa identificou uma ruptura simbólica e econômica, pois a remoção compulsória forçou os pais a pescarem longe, impossibilitando a transmissão geracional de saberes pesqueiros e o acompanhamento dos filhos, além de fragilizar laços afetivos familiares.
Matemática como ferramenta social
Ancorada no campo da Etnomatemática, a pesquisa de Marcos sustenta-se em pressupostos teóricos e metodológicos, na perspectiva que intersecta ideias de Ludwig Wittgenstein.
De acordo com o pesquisador, a etnomatemática possibilita problematizar questões sociais, políticas e ecológicas dentro de uma área tradicionalmente vista como de ciências exatas. Nesse sentido, Marcos propõe pensar uma matemática escolar que não precisa ser descolada da realidade vivida pelas comunidades.
“Ludwig Wittgenstein tem uma lógica de pensar a ruptura da matemática como uma linguagem única e universal, né, mas de pensar que existem outras linguagens que tratam de matemática também e como que essas matemáticas, elas se fazem presente e movem as formas de vida das pessoas dos diferentes territórios, seja indígena, quilombola, ribeirinho, agricultor, pedreiro, engenheiro, cada grupo tem a sua forma de matematizar”, complementa Marcos.
Para o autor premiado, um dos objetivos de sua pesquisa também é demonstrar que pessoas sem acesso à escola formal possuem saberes matemáticos complexos e que esses elementos podem contribuir para o ensino da matemática escolar, valorizando práticas geracionais e o convívio cotidiano.
O emergir de resistências
A análise dos relatos do diário de bordo e das cartografias sociais feitas pelos estudantes emergiram, segundo a pesquisa, em quatro unidades de análise distintas. A primeira delas foi a existência na forma de vida dos alunos ribeirinhos, de jogos de linguagem que possuem semelhanças de família na aprendizagem da matemática escolar, como os conceitos de espaço, forma, tamanho.
Outra unidade de análise empregada na pesquisa foi a apropriação por parte das crianças dos jogos de linguagem desenvolvidos na atividade da pesca, seja por meio da manipulação dos apetrechos de pesca, e/ou da observação e/ou acompanhamento da execução dessa atividade, bem como quando apontam possíveis reflexos causados pela implantação da UHEBM, como a redução do tamanho e quantidade de peixes na comunidade.
A terceira unidade para análise foi a pertinência de que os estudantes ribeirinhos tenham acesso a outros distintos jogos de linguagem de outros contextos, como forma de resistência às influências da Usina Hidrelétrica. Por fim, em uma quarta perspectiva de análise da pesquisa, estão as formas de resistência, que ocorrem a partir da apropriação dos saberes, não apenas no seu lugar de pertencimento, como também dos saberes de outros espaços, como forma de permanecer e resistir.
“É mostrar que, dentro dos territórios rurais, camponeses e outros, existem diversas formas de produção de saberes e que têm garantido as formas de vida dessas famílias dentro desses territórios. E mesmo que a universidade, por vezes, não reconheça esses saberes como saberes científicos, porque de fato eles não são, mas eles são saberes que têm garantido a sobrevivência dessas famílias nos territórios”, reforça Marcos.
Protagonismo das mulheres na pesca
Com a premiação, o pesquisador ganhou uma bolsa de pós-doutorado e seguiu pesquisando na beira do rio, voltada ao protagonismo das mulheres na pesca. Embora a pesca seja vista como uma atividade majoritariamente masculina, o novo estudo de Marcos revelou que as mulheres possuem um papel central e muitas vezes invisibilizado.
Ao longo do estudo, o docente investigou como as mulheres amazônicas iniciavam as crianças na pesca e na conservação da biodiversidade, assumindo protagonismo tanto na atividade pesqueira quanto na transmissão de conhecimentos.
“As pesquisas coletivas potencializam isso. Não é dar vozes para essas pessoas, porque elas possuem, mas como que a gente, como academia, universidade, pode potencializar que isso chegue em outros lugares, que existem outras formas de vida dentro desses territórios que precisam ser respeitados”, acrescenta Marcos.
Saiba mais
Prêmio CAPES de Tese
Instituído em 2005, o Prêmio Capes de Teses é concedido anualmente às melhores teses de doutorado defendidas e aprovadas nos cursos de pós-graduação reconhecidos pelo MEC, selecionadas em cada uma das áreas do conhecimento da Capes, considerando os quesitos originalidade e qualidade. Informações e inscrições no site da Capes.