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Ocupações de escolas como acontecimento: tese reconhecida pela Capes analisa movimento estudantil a partir da noção de democracia por vir

Pesquisa acompanhou ocupantes de uma unidade escolar, no Rio de Janeiro, no processo de construção de uma escola democrática e dialógica

Autor- Jade Castilho,Fluxo Educação -13/01/2026 12:18:08

Foi em meio ao movimento de ocupação de alunos e alunas do Ensino Médio da escola em que trabalhava, que Marinazia Cordeiro Pinto iniciou inúmeras reflexões que a levaram à sua pesquisa de doutorado reconhecida peloPrêmio Capes de Tese 2025com menção honrosa na categoria Educação. 

O estudo foi elaborado no Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e discorre sobre as ocupações de escolas no Rio de Janeiro em 2016, a partir de noções da Teoria do Discurso de Ernesto Laclau e da Desconstrução, do filósofo Jacques Derrida. 

O trabalho se apoia na experiência vivenciada no CIEP 225 Mário Quintana (MQ) e explora a noção de democracia por vir, entendendo a democracia como algo em constante busca e não plenamente realizável.

Ao longo do estudo, as ocupações das escolas são analisadas como "acontecimento" e não como "programa", destacando a imprevisibilidade e o caráter desestruturador. A autora reflete sobre a impossibilidade de narrar o acontecimento em sua totalidade, mas a necessidade de mantê-lo vivo na memória.

De acordo com a autora, ao trazerem ao título o conceito de “Democracia por vir”, afirma que não existe democracia plena, mas sim democracia em constante construção. 

“Ela é da ordem do im-possível. Esse “im-possível”, escrito por Derrida com hífen, está relacionado ao fato de que a democracia, embora uma impossibilidade em sua realização total, constitui-se como uma responsabilidade que devemos assumir, em um investimento radical, pela sua construção e consolidação; sabendo que ela estará sempre em um por vir que nunca se presentificará”, comenta.

Espectros da ocupação e desconstrução da colonialidade

Outro conceito mobilizado ao longo da tese é a noção derridiana de espectros. Segundo essa noção, a linearidade do tempo é uma construção. Foi a partir da ideia de espectralidade, que Marinazia pensou as ocupações de escolas.

“Existem, nas coisas do presente, o passado e também o futuro. É nesse movimento sem fronteiras temporais que os sentidos de tudo – humanos, não-humanos, vivos e “não-vivos” - vão se constituindo. Quando dizemos que as ocupações nunca estarão apenas em um passado, que seus efeitos seguem espectrando as escolas que passaram por esse processo e também as que não passaram. Trata-se de aceitar que esses efeitos não podem ser enumerados e delimitados

As ocupações são vistas, a partir da teoria do discurso presente na tese, como um exemplo de luta antagonística, constituindo um "nós" (ocupantes) contra um "eles" (sistema educacional e políticas estaduais). A principal demanda de muitas escolas era “mais democracia na escola”. 

O texto propõe uma desconstrução da colonialidade, conectando-a ao "espectro do quilombo" como resistência às hegemonias e à crença em um padrão único de ser humano e cultura. Para Marinazia, o Movimento Estudantil das Ocupações surgiu como um movimento de desconstrução da colonialidade, no sentido de que abalou as estruturas hegemônicas presentes no espaço da escola.

Ao longo da tese, esse movimento apresentado mostra que, durante as ocupações, as e os ocupantes vivenciaram o dia a dia da escola de forma distinta do que a rotina que tinham antes da ocupação. 

“Trazemos a desconstrução da colonialidade que diz respeito ao movimento de questionar o que se propõe como inquestionável, desnaturalizar o que insiste em se apresentar como natural e inevitável e desierarquizar o que, a partir de uma hegemonia, apresenta-se em uma escala de superioridade-inferioridade”, complementa a autora. 

Mobilização e subjetividades

Entre os achados encontrados pela pesquisa, Marinazia menciona o reconhecimento dos estudantes que, quando mobilizados, têm mais força e podem alcançar muitos de seus objetivos. 

Assim, a coletividade saiu fortalecida desse movimento. Contudo, segundo a docente e pesquisadora, aos olhos dos que defendem o controle da educação, essa força reconhecida pelos educandos e educandas precisa ser contida e a Reforma do Ensino Médio, em algum sentido, talvez seja esse mecanismo de contenção da força das ações coletivas.

“Quando conversamos com as alunas e os alunos, ao final do processo de ocupação, eles foram enfáticos ao dizerem, entre brados de “ocupar e resistir”, que a “a democracia chegou à escola”, fazendo referência ao fato de que outras gestoras e outros gestores ocupariam, a partir de um processo democrático de eleição, o cargo de diretoras e diretores da escola”, acrescenta a autora. 

Um fato salientado pela pesquisa é de que a escola ocupada no movimento de ocupações de escolas em 2016 no Estado do Rio de Janeiro não foi sinônimo de escola sem aula. A rotina das aulas, segundo Marinazia, na medida do possível, foi mantida, mas com formatos variados, desde o formato mais tradicional até rodas de conversas, dinâmicas, aulas de relaxamento, grafite, música, entre outras. 

Os alunos também performaram um formato de gestão participativa em que se dividiram em comissões que respondiam pelas finanças, pela publicidade, pelo cronograma de aulas, pela segurança, pela alimentação, pelos eventos, pelos esportes, etc. 

“A escola, assim como todos os espaços da sociedade, é um lugar de constantes negociações de sentidos. Nada é permanente, estamos sempre no jogo de disputar sentidos em nossas práticas”, completa a pesquisadora. 

Sobre a premiação

Já com relação à premiação, Marinazia reconhece a importância do trabalho coletivo com sua orientadora, Profa. Dra. Alice Casimiro Lopes, e o apoio de amigos professores, que não se economizaram em conversas e contribuições. 

“Enfim, as palavras que resumem essa resposta talvez pudessem ser: surpresa, gratidão, reconhecimento e alegria”, finaliza. 

Saiba mais

Prêmio CAPES de Tese

Instituído em 2005, o Prêmio Capes de Teses é concedido anualmente às melhores teses de doutorado defendidas e aprovadas nos cursos de pós-graduação reconhecidos pelo MEC, selecionadas em cada uma das áreas do conhecimento da Capes, considerando os quesitos originalidade e qualidade. Informações e inscrições no site da Capes.

Ocupações de escolas como acontecimento: uma democracia por vir

Premiada:Marinazia Cordeiro Pinto

Instituição:Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ)

Orientadora:Alice Ribeiro Casimiro Lopes

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