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“Professor é uma pessoa”: estudo de pesquisadora da Fundação Carlos Chagas analisa subjetividade docente na periferia de São Paulo

Foco excessivo no desempenho técnico, na burocracia e nas políticas educacionais descontextualizadas retira a dimensão pessoal do professor, segundo pesquisa

Autor- Jade Castilho,Fluxo Educação -12/05/2026 10:06:19

Como se constitui a subjetividade de um professor? Sua rotina de trabalho, suas motivações pessoais, o trajeto cotidiano e as relações entre a comunidade escolar podem ser fatores que interagem com a sua pessoa interior. 

Pensando nisso,Adelina Novaes, doDepartamento de Pesquisas Educacionaisda Fundação Carlos Chagas, conduziu um estudo dedicado a investigar a constituição das subjetividades de professores que atuam em escolas periféricas da cidade de São Paulo.

Com o intuito de oferecer elementos para a elaboração de "políticas de subjetividade" educacionais, o trabalho articulou conceitos de subjetividade social e representações sociais para investigar singularidades dos docentes participantes, sem ignorar a dimensão social. 

O foco excessivo no desempenho técnico, na burocracia e nas políticas educacionais descontextualizadas retira, dos estudos, a pessoalidade do professor. A pesquisa destaca que a subjetividade de docentes (sentimentos, afetos, histórias de vida, experiências) é esquecida.

“É importante pensar nas políticas de subjetividade que precisam ser feitas e que só podem funcionar de fato se o sujeito lá na escola, o professor, o educador, compreender o que ela significa: algo que faça sentido para aquela pessoa, para aquele docente”, comenta Adelina Novaes. 

A pesquisa argumenta que a prática pedagógica é profundamente influenciada pelo contexto social e pelas trajetórias formativas, profissionais e pessoais dos docentes, que não se "desligam" de suas subjetividades ao entrarem na sala de aula. 

A metodologia Q foi utilizada em dois projetos da pesquisadora como estratégia para acessar a subjetividade dos professores participantes de escolas periféricas da capital paulista, de forma sistemática e objetiva. 

Em ambos os projetos, foram oferecidos aos participantes 70 cartões, cada um contendo uma frase sobre temas como permanência na profissão, formação e condições de aprendizagem. Os respondentes examinaram e graduaram esses cartões por ordem de importância em uma "régua" com escores de 0 a 10.

 A gradação das frases seguiu uma distribuição de frequência pré-determinada, aproximando-se de uma curva normal, o que obrigava o participante a selecionar apenas um pequeno número de frases para os extremos de maior ou menor importância.

Cada item recebeu uma nota baseada no posto atribuído na régua. Os arranjos foram correlacionados e submetidos a uma análise para identificar tendências comuns e agrupar as respostas de professores com visões similares. Com isso, o método permitiu identificar grupos com diferentes configurações de respostas, baseando-se em variáveis como o tempo de docência. 

O mal-estar docente

Os dados coletados confirmaram o agravamento do mal-estar entre os professores da periferia de São Paulo. O tempo de carreira revelou-se um elemento crucial na constituição da subjetividade: professores em meio de carreira, com cinco a 15 anos, apresentaram uma maior satisfação e orgulho profissional. Eles tendem a assumir o protagonismo da aprendizagem e veem-se como agentes de mudança social.

Já os docentes iniciantes e os veteranos próximos à aposentadoria, demonstram maior insatisfação. Nesses grupos, as razões para o descontentamento são atribuídas a fatores externos, como o Estado, a mídia, a indisciplina escolar ou a falta de reconhecimento familiar.

Na visão sobre o aluno, os estudos evidenciam que os professores, frequentemente, possuem expectativas negativas acerca da docência para estudantes da periferia devido à vulnerabilidade social desses territórios. Nos dois projetos, os itens que destacam a importância social da profissão foram muito valorizados, indicando que este é um elemento central da motivação docente.

Políticas de subjetividade

Os estudos defendem que políticas educacionais só são eficazes quando fazem sentido para os sujeitos envolvidos e propõem o fortalecimento dialógico da tríade docente-educando-componente curricular em ações formativas.

Nesse sentido, as pesquisas apontam que as representações sociais da docência, para os participantes, estão ligadas a concepções de educação emancipatória. O núcleo simbólico da práxis docente, uma ideia proposta pelos estudos, é visto como motor da profissionalização, sugerindo que políticas que se pretendem eficazes devem considerar as subjetividades dos professores, o que contribuiria para diminuir a precarização do trabalho e o desamparo sentido pelos educadores.

A Teoria das Representações Sociais (TRS), formulada por Serge Moscovici nos anos 1960, foi base teórica para a pesquisa desenvolvida por Adelina e explica como o conhecimento científico e abstrato se transforma em senso comum para que as pessoas possam entender e lidar com o mundo ao seu redor. 

Para Moscovici, as representações sociais não são apenas opiniões, mas sistemas de interpretação que orientam nossas condutas e comunicações cotidianas. Possuindo volumosos estudos no campo educacional,  a TRS ultrapassou os limites de sua origem na psicologia social e é muito empregada  na saúde, na comunicação social,  entre outras áreas, para entender como diferentes grupos vêem temas diversos.

Desumanização e invisibilidade 

A intensificação das tarefas, jornadas exaustivas e a falta de condições de trabalho de qualidade geram sofrimento psíquico, evidenciando que o professor é um ser humano que sofre.

Ao afirmar que o professor é uma pessoa, Adelina enfatiza a necessidade de reconhecer a constituição de suas identidades profissionais como integrantes de suas subjetividades sociais. Isso significa valorizar o professor em sua totalidade, em contraposição a uma visão tecnicista. 

“Quanto mais precarizado, maior o sofrimento, obviamente, dos docentes, e maior o impacto na qualidade da educação. A subjetividade dos professores, pensando nesses contextos de vulnerabilidade, molda suas práticas pedagógicas também”, comenta a pesquisadora. 

Ao longo da pesquisa e das visitas nas escolas da periferia da zona leste de São Paulo, estudadas por Adelina, a pesquisadora observou práticas pedagógicas baseadas nos princípios de uma pedagogia freiriana. 

A experiência positiva mostrou, para a docente e pesquisadora, a crença dos professores de que, de fato, eles podem contribuir para a transformação da educação brasileira apesar de todos os problemas presentes no cotidiano escolar. 

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