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Quebrar os muros do terreiro: tese reconhecida pela Capes discute formação de professores antirracistas e a descolonização de saberes

Pesquisa cria o conceito de pretagogiras e propõe o uso da Análise Preta do Discurso como metodologia de formação docente

Autor- Jade Castilho,Fluxo Educação -20/01/2026 13:21:04

Quebrar os muros do terreiro. Foi assim que Thiago Augusto Pestana da Costa definiu parte de sua pesquisa reconhecida com menção honrosa na categoria Ensino no Prêmio Capes de Tese 2025. Sua tese intituladaPretagogiras: práticas e saberes ressignificados para uma educação antirracistapropõe uma pedagogia antirracista voltada para a formação de professores. 

O estudo foi elaborado no Programa de Pós-graduação em Ensino e História das Ciências e da Matemática (PEHCM) da Universidade Federal do ABC (UFABC) e aborda o uso daAnálise Preta do Discurso (APD)como metodologia de formação docente.

A partir de uma análise de dados censitários, a pesquisa demonstra a condição de precariedade social, econômica e política à qual a maioria da população brasileira não branca se encontra, fato que reflete na dificuldade de acesso à educação e ascensão a postos de trabalho melhor qualificados e remunerados. 

Os documentos com as diretrizes oficiais para a educação básica indicam a abordagem da cultura africana, das africanidades, no entanto, pouco colaboram na promoção de uma educação antirracista e o reconhecimento dos saberes pretos. 

A APD, de acordo com a pesquisa, é uma subversão da ordem discursiva hegemônica que busca evidenciar pesquisas acadêmicas pretas, incluir, valorizar e difundir os discursos pretos na formação de professores, combatendo o silenciamento e o racismo.

O estudo defende a decolonialidade como instrumento discursivo combativo a discursos hegemônicos e o campo da Educação como espaço para práticas de descolonização e ressignificação de saberes. Ainda no debate sobre a Análise Preta do Discurso, Thiago considera o lugar de preto como um lugar de fala ancestral, com a responsabilidade sobre o que se diz, um discurso permeado de essências e ancestralidade.  

“Ao identificar os silenciamentos e as ausências dos discursos pretos promovidos pelos discursos eurocêntricos e hegemônicos, a Análise Preta do Discurso é uma proposta de identificar e incluir esses discursos pretos em pesquisa acadêmica”, comenta Thiago. 

A APD, assim, analisa a construção discursiva da História do passado e do presente identificando as ausências e silenciamentos provocados pelas forças discursivas dominantes. 

Especialmente com relação à formação de professores, a Análise Preta do Discurso, para a pesquisa, busca incluir, valorizar e difundir os discursos pretos e colabora com a descolonização dos discursos. 

Ao longo da tese, com escrita também em iorubá, Thiago propõe a ideia da interPRETAção, ou seja, o agir e escrever com base no uso da APD para compreender e interpretar discursos pretos, para que possam agir no campo acadêmico e na formação de educadores antirracistas. 

A ideia de pretagogiras

Professor de história, Thiago, em uma de suas aulas no 6º ano do Ensino Fundamental, ouviu de um estudante umbandista que se sentia acuado em abordar sobre sua religião e relações que estabelecia com a história com a turma. 

Pensando nisso, o autor da tese cria o conceito de pretagogiras, que une as palavras preta, pedagogia e giras. As pretagogiras, para Thiago, é uma ação preta que esteja alicerçada com o respeito e poder da gira de candomblé, uma das vertentes religiosas mais atacadas no Brasil. 

Com isso, a intenção das pretagogiras, de acordo com o pesquisador, é romper com a demonização criada pela branquitude racista de mentalidade colonialista levando para a Formação de Professores, o discurso sobre a História e epistemologias de terreiro, que insere os Orixás graças às vozes pretas que coletivamente deram suas contribuições para essa tese.

“É preciso pensar no reconhecimento do que se tem de material e referências pretas, fazer a Análise Preta do Discurso, ao que vem sendo produzido, para que a gente possa ouvir e ver essas referências pretas. A gente só consegue promover uma educação antirracista quando a gente consegue ler, conhecer e fazer circular essas referências, por meio de artigos, pesquisas, e em sala de aula”, comenta Thiago. 

Ainda que existam políticas públicas educacionais voltadas para o ensino de história indígena e afro-brasileira nas escolas, como a Lei 10.639/03 e 11.648/08, mencionados pelo professor e pesquisador, a existência de professoras e professores capacitados para cumprí-las é de extrema urgência, para que os discursos pretos possam ser valorizados e conhecidos.

Sobre a premiação

A tese elaborada pelo pesquisador e professor foi adaptada para um livro,lançado pela editora Dialética, no final de 2025. Além disso, Thiago informou que planeja desmembrar três capítulos principais — Análise Preta do Discurso, Pretagogiras e História da Ciência Negra — em livros separados para torná-los mais acessíveis e diretos.

Sobre a menção honrosa recebida pela Capes, o autor enfatizou que a educação antirracista requer o reconhecimento e a circulação de referências de pensadores pretos, como Lélia Gonzales e Sueli Carneiro, que questionaram as formas masculinas de escrever história. 

“É preciso escrever artigos, palestras e workshops baseados nessas vozes para quebrar o "pacto da branquitude", que mantém os discursos hegemônicos no poder”, completa o autor

Olivro completo pode ser adquirido no site da editoraresponsável pela publicação. 

Saiba mais

Prêmio CAPES de Tese

Instituído em 2005, o Prêmio Capes de Teses é concedido anualmente às melhores teses de doutorado defendidas e aprovadas nos cursos de pós-graduação reconhecidos pelo MEC, selecionadas em cada uma das áreas do conhecimento da Capes, considerando os quesitos originalidade e qualidade. Informações e inscrições no site da Capes.

Pretagogiras: práticas e saberes ressignificados para uma educação antirracista

Premiado:Thiago Augusto Pestana da Costa

Instituição:Universidade Federal do ABC Paulista (UFABC)

Orientador:Marcelo Zanotello

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