Novo Plano Nacional de Educação: acesso à pós-graduação, equidade e formação acadêmica de qualidade
Em entrevista sobre as metas e objetivos do Novo Plano, pesquisador da Fundação Carlos Chagas alerta para as barreiras estruturais de ingresso à carreira acadêmica
Jade Castilho
15/07/2026 10:20:59
Ampliar a formação de mestres e doutores, de forma equitativa e inclusiva, priorizando a prospecção e a solução dos problemas da sociedade compõe um dos objetivos do novo projeto do Plano Nacional de Educação 2024-2034.
Segundo o documento, para medir o sucesso desse objetivo, estão estabelecidas metas específicas que incluem elevar a titulação anual de mestres e doutores, reduzir desigualdades regionais e sociais no acesso à pós-graduação e fomentar pesquisas com impacto direto no desenvolvimento socioeconômico e tecnológico do país.
Em entrevista,Rodnei Pereira, doDepartamento de Pesquisas Educacionaisda Fundação Carlos Chagas, destaca que os gargalos relacionados no acesso à pós-graduação estão ligados à trajetória na educação básica, refletindo desigualdades acumuladas desde as primeiras etapas de ensino.
Além desse desafio estrutural, há um gargalo de ordem material: renda, moradia, tempo disponível para estudo, cuidado com familiares e a necessidade de um trabalho remunerado ou jornada dupla. Além disso, para o pesquisador, programas de pós-graduação no Brasil ainda operam com culturas acadêmicas excludentes, meritocráticas e pouco sensíveis à diversidade social, racial, regional, linguística e às deficiências.
“Não por acaso, o novo PNE associa equidade à expansão regional da oferta, à concessão de bolsas, às ações afirmativas e à criação de um censo da pós-graduação com dados que possam orientar políticas públicas”, afirma Rodnei.
Há ainda um problema de representação. Segundo o Plano Nacional de Pós-Graduação 2025-2029 (PNPG),57% das pessoas com título de pós-graduação no Brasil são mulheres. Apesar de serem maioria entre as doutoras no Brasil há mais de 20 anos, as mulheres representam apenas 43% do corpo docente da pós-graduação.
Estudos recentes publicados na Revista Brasileira de Pós-Graduação (RBPG) mostram que a equidade racial na pós-graduação continua distante. Em 2023, apenas 13,5% dos titulados stricto sensu eram negros, embora a população negra corresponda à maioria da população brasileira.
“Esse dado não é um detalhe estatístico; ele mostra que o sistema ainda seleciona e retém desigualmente. Por isso, falar em mérito sem enfrentar desvantagens estruturais significa naturalizar privilégios históricos da população branca”, reforça Rodnei.
Da academia às ruas
Como orientado no novo PNE, a pós-graduação deve apoiar a formação de mestres e doutores com base na prospecção e na solução de problemas da sociedade, alinhando a formação acadêmica às demandas sociais, políticas públicas e ao mundo do trabalho.
Rodnei, docente e pesquisador, alerta para a necessidade de mudanças na organização e no planejamento da formação em nível stricto sensu. Na prática, para ele, isso implicaria a ampliação de pesquisas em parceria com redes públicas, territórios e serviços, valorizar produtos e impactos sociais, fortalecer interdisciplinaridade em problemas complexos e criar mecanismos de tradução do conhecimento para gestores, escolas, sistemas de saúde, assistência e cultura.
“Ciência relevante não é ciência subordinada ao imediatismo ou a um pragmatismo vazio; mas é uma ciência capaz de manter rigor e, ao mesmo tempo, dialogar com necessidades reais do país”, complementa Rodnei.
Muito além do acesso
Além do acesso, a permanência é um desafio na pós-graduação. Nesse sentido, políticas de apoio à permanência de educandas e educandos na pesquisa acadêmica são fundamentais para o desenvolvimento e a conclusão dessas formações.
Para isso, de acordo com o pesquisador, a permanência precisa tratar a pós-graduação como trabalho intelectual exigente, e não como uma atividade que pode ser sustentada apenas por vocação individual.
A oferta de bolsas, por exemplo, continua sendo algo central para essa promoção de acesso e permanência na pós-graduação. Além das bolsas, é preciso pensar em políticas para moradia, alimentação, apoio à maternagem, acolhimento em saúde mental, acessibilidade, apoio acadêmico, programas de ampliação do capital cultural e acadêmico e combate institucional ao assédio e à discriminação.
Rodnei salienta, ainda, que a permanência não pode ser pensada de forma genérica.
“estudantes com filhos, pessoas com deficiência, indígenas, quilombolas, estudantes negros, pessoas LGBTQIAPN+, mulheres nas áreas STEM e pós-graduandos de regiões periféricas enfrentam obstáculos específicos”, comenta.
Além disso, a permanência também depende, para ele, da qualidade da orientação e do ambiente acadêmico. Programas que estabelecem prazos e cronogramas incertos ou incompatíveis com as condições objetivas de vida e trabalho das populações que, historicamente não conseguem permanecer na pós-graduação, concentram poder, naturalizam abusos e não acompanham dificuldades produzem uma evasão silenciosa.
Qualidade da educação básica e formação de professores
Investir na melhoria da formação de mestres e doutores pode retroalimentar diretamente a qualidade da educação básica e a valorização dos professores?
Para o pesquisador e docente, a resposta é sim. O objetivo 14 do novo PNE prevê o favorecimento da articulação entre produção científica das instituições de educação superior e educação básica. O objetivo 16 salienta estimular trocas de experiências e práticas entre profissionais da educação e instituições de ensino superior, com socialização de pesquisas e trabalhos acadêmicos sobre educação.
Em outras palavras, o plano reconhece que há uma relação a ser construída. Na prática, segundo Rodnei, mestres e doutores podem qualificar a educação básica de diferentes maneiras, como produzindo conhecimento aplicável à gestão pedagógica, desenvolvendo materiais e tecnologias educacionais, formando professores e gestores que estão em exercício, avaliando políticas públicas e alimentando processos de inovação com base empírica.
“Quando a pesquisa se encerra com a defesa da tese ou da dissertação, a não ser que se tenha produzido um avanço teórico significativo para o campo, sua incidência sistêmica é baixa. Quando ela retorna à escola, à rede e à política pública, ela passa a atuar na valorização profissional e na melhoria da aprendizagem. Isso indica que precisamos investir tanto na tradução de pesquisas acadêmicas em metodologias e práticas quanto em investigações voltadas para o desenvolvimento de produtos educacionais, que conectem pesquisadores aos gestores, professores, alunos e comunidades”, completa.