Além do conteúdo: como a realidade dos estudantes transforma a prática docente
Aproximação entre os conceitos de Arquitetura e Urbanismo e as realidades do sertão cearense fortalece uma educação contextualizada e criativa
Ensinar não se resume a transmitir conhecimentos. Na perspectiva do educadorPaulo Freire, a educação se constrói por meio do diálogo e da relação entre o conhecimento e a realidade vivida pelos sujeitos. Essa concepção convida a olhar para a docência não apenas como o trabalho de apresentar conteúdos, mas também como uma prática que considera as experiências dos estudantes e reconhece seu papel ativo na aprendizagem.
No ensino superior, essa reflexão é especialmente importante na preparação de futuros profissionais, que precisam relacionar teorias e conceitos concretos de suas áreas de atuação. As histórias de vida, as referências culturais e os contextos sociais universitários também podem contribuir para esse processo, ampliando as possibilidades de aprendizagem.
É nesse encontro entre conhecimento acadêmico e experiência que se constrói a docência de Glaudemias Grangeiro Junior, professor de Arquitetura e Urbanismo da UniCatólica (Centro Universitário Católica de Quixadá), no sertão do Ceará. Ao longo de sua trajetória, ele busca aproximar conceitos teóricos das características das cidades do sertão, considerando suas dinâmicas, seus modos de vida e as necessidades das populações locais. Ele também busca incluir referências a comunidades sertanejas, quilombolas e indígenas nas atividades acadêmicas.
Para o professor, o contato com diferentes comunidades contribui tanto para a formação técnica quanto para o desenvolvimento pessoal dos universitários. “Para o estudante isso é uma formação muito rica”, afirma. Segundo ele, essas experiências permitem ampliar o repertório de referências, exercitar a criatividade e entrar em contato com a própria história.
A relevância dessa atuação foi reconhecida pela Câmara Municipal de Fortaleza. O professor foihomenageadoem sessão solene, em dezembro de 2025, por sua contribuição profissional e acadêmica à Arquitetura e ao Urbanismo no Ceará. A indicação destacou seu trabalho com o sertão como objeto depesquisa e reflexão urbanística, valorizando territórios historicamente abordados pela área.
Uma conversa vivenciada pelo professor de Icó ajuda a compreender o significado desse reconhecimento. Ao saber que Glaudemias havia realizado o sonho de se tornar professor, um aluno comentou: “Você é a primeira pessoa que eu conheço que já realizou um sonho”. O docente respondeu: “Seja você a segunda pessoa que você conhece”.
A troca ficou marcada na memória de Glaudemias, que também foi a primeira pessoa de sua família a concluir o ensino superior. Para ele, acompanhar o desenvolvimento dos alunos significa participar de um processo que pode ampliar horizontes, especialmente em contextos nos quais as distâncias geográficas e as barreiras sociais interferem nas oportunidades de acesso à educação.
“A minha graduação era um sonho também dos meus pais, um sonho em conjunto. Eu já gostava da ideia de ser professor ainda na escola, mas era algo que era muito desestimulante por conta de todas as dificuldades que a gente sabe que um professor passa. E a Arquitetura surge em um momento mesmo sem eu nunca ter tido acesso a ela”, afirma.
Conhecer quem está em sala de aula
A importância de considerar as experiências dos estudantes também aparece na pesquisa de Agnes Francine de Carvalho Mariano, autora do artigo “O que te trouxe até aqui?’: narrativas de si como recurso pedagógico”, publicado na revistaCadernos de Pesquisa, da Fundação Carlos Chagas. O estudo analisa como narrativas autobiográficas de estudantes universitários podem contribuir para a prática docente e para a construção de vínculos entre professores e alunos.
A pesquisa parte da compreensão de que a experiência universitária não se resume ao aprendizado de conteúdos. As trajetórias pessoais, as condições de vida, as relações familiares, as dificuldades e as expectativas dos estudantes também atravessam sua formação. Conhecer essas dimensões pode ajudar docentes a compreender melhor quem está em sala de aula e a pensar em estratégias de ensino mais contextualizadas.
No estudo, a pesquisadora analisa narrativas de seis estudantes de uma universidade pública do interior de Minas Gerais. Os relatos revelam experiências e desafios que nem sempre aparecem nas interações cotidianas em sala de aula. A análise aponta que conhecer essas histórias pode fortalecer a relação de confiança entre docentes e discentes e oferecer elementos para ajustar práticas pedagógicas às necessidades dos alunos.
Embora o trabalho de Glaudemias não se baseie necessariamente no uso de narrativas autobiográficas como recurso pedagógico, as duas experiências se aproximam ao reconhecer que a formação ganha sentido quando considera as realidades dos estudantes. No caso do professor, essa atenção se manifesta especialmente na valorização do território, das culturas e das histórias que atravessam a formação de futuros arquitetos e urbanistas.
Ensinar também é construir junto
As experiências e os contextos dos estudantes se somam ao processo de troca e de construção compartilhada que amplia a atuação do próprio docente: além de ensinar conteúdos e orientar formação profissional, ele também precisa estar disposto a escutar, rever perspectivas e aprender com os alunos.
Glaudemias relata a satisfação de acompanhar turmas que, ao longo de projetos acadêmicos, ganham confiança para apresentar suas próprias ideias e tomar decisões. Nesse processo, a aprendizagem envolve também o desenvolvimento da capacidade de argumentar e atuar com autonomia.
Ao valorizar os saberes e as características do sertão, o professor de arquitetura procura mostrar que o território onde os estudantes vivem não é apenas o cenário de sua formação, mas também uma fonte de conhecimento e de novas perguntas.
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