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Saúde mental de professores: por que o adoecimento vai além indivíduo

O aumento dos afastamentos entre docentes por questões psicológicas reforça a necessidade de se discutir as condições de trabalho nas escolas

Por Brenda Teixeira e Jade Castilho

Publicado em:

23/07/2026 09:42:26

A saúde mental dos professores tem ocupado um espaço cada vez maior no debate educacional. O aumento dos afastamentos por transtornos como ansiedade, depressão e síndrome de burnout revela um cenário preocupante. Especialistas apontam que o adoecimento docente está diretamente relacionado às condições de trabalho, à valorização da profissão e às políticas que organizam o cotidiano das escolas, e fatores como esse mostram que esse cuidado vai muito além do que uma questão individual.

Dados do Ministério da Previdência Social ajudam a dimensionar esse quadro. Em 2025, o Brasil registroumais de 65 mil afastamentos de professores da rede públicapor problemas de saúde mental.Estudo da Fiocruztambém indica que sete em cada dez docentes apresentam sinais de ansiedade ou depressão, enquanto levantamentos apontam altos índices de estresse e exaustão emocional entre profissionais da educação. 

Diante desse contexto, cresce o entendimento de que cuidar da saúde mental dos professores significa também discutir a organização do trabalho docente e os desafios enfrentados diariamente nas escolas.

Para a psicóloga e educadora Ellen Ramos Cardoso, antes de tudo é preciso compreender que saúde mental não corresponde à ausência de sofrimento. Segundo ela, a ideia de que as pessoas devem estar felizes e emocionalmente equilibradas o tempo todo desconsidera que o sofrimento faz parte da experiência humana.

"Quando a gente está falando de saúde mental, está falando de uma capacidade de lidar com tudo aquilo que a nossa sociedade produz, conseguindo trabalhar, aprender e viver minimamente de forma saudável dentro dessas condições", explica.

A especialista ressalta, porém, que esse debate não pode recair apenas sobre a responsabilidade individual. "A nossa sociedade já produz sofrimento. Então, não vamos dar conta dele de forma individual. É uma responsabilidade coletiva, do Estado e das políticas públicas pensar formas de enfrentar esse adoecimento", afirma.

Essa perspectiva ajuda a compreender por que o problema tem se tornado tão frequente entre professores. Além das demandas próprias da sala de aula, esses profissionais convivem diariamente com diferentes expectativas e responsabilidades, que extrapolam o ato de ensinar.

Segundo Ellen, o professor precisa responder, ao mesmo tempo, às necessidades dos estudantes, das famílias, da instituição escolar e da própria sociedade. Esse conjunto de cobranças produz uma sensação constante de sobrecarga.

"É um profissional que está sendo demandado de vários lugares ao mesmo tempo. Isso gera um estado permanente de alerta", observa.

Quando a pressão por resultados redefine o trabalho docente

A situação se torna ainda mais complexa quando todas as demandas da rotina docente se somam à desvalorização da carreira, à remuneração insuficiente e às condições de trabalho. Muitos profissionais acumulam jornadas em diferentes escolas, levam atividades para casa, têm pouco tempo de descanso entre as aulas e lidam diariamente com situações que vão desde conflitos escolares até casos de violência, insegurança alimentar e vulnerabilidade social vivenciados pelos estudantes.

Esse cenário dialoga com pesquisas recentes sobre o trabalho docente. Estudo, publicado pela revista Estudos em Avaliação Educacional, analisouuma rede municipal de ensino entre 2016 e 2024identificou que a crescente pressão por indicadores educacionais e avaliações externas modificou profundamente o cotidiano das escolas. A busca por melhores resultados passou a intensificar mecanismos de controle sobre o trabalho dos professores, reduzindo sua autonomia pedagógica e aumentando a pressão por metas.

Entre as mudanças observadas estão o estreitamento curricular, com maior foco nas disciplinas avaliadas em exames externos, a multiplicação de provas padronizadas e o acompanhamento constante do desempenho das turmas. Segundo as autoras da pesquisa, esse modelo tem contribuído para a precarização do trabalho docente e para o aumento de afastamentos e pedidos de exoneração.

Na avaliação de especialistas, esse contexto reforça que o adoecimento dos professores não pode ser explicado por fragilidades individuais. Ao contrário, ele reflete transformações estruturais na forma como a educação tem sido organizada e evidencia a necessidade de políticas públicas voltadas não apenas ao desempenho escolar, mas também às condições de trabalho e ao cuidado com quem ensina.

Docência e os impactos dos recortes de raça e gênero

Segundo dados do Censo Escolar 2025, divulgados pelo Ministério da Educação (MEC),78,8% dos cargos de docência na educação básica são ocupados por mulheresno Brasil. Elas também sãoa maioria na formação acadêmica e carreira científica. Para o Plano Nacional de Pós-Graduação 2025-2029 (PNPG), 57% das pessoas com título de pós-graduação no Brasil são mulheres. 

Em um cenário de precariedade do trabalho, as mulheres lidam com múltiplas jornadas, além do trabalho, com o cuidado de familiares, do ambiente doméstico, entre outras atividades. Esse contexto se torna ainda mais intenso para as mulheres negras, que são atravessadas cotidianamente pelas violências do racismo. Os atravessamentos de vida e experiências de violência marcam os corpos de pessoas negras, que não acessam os direitos básicos para vivência e sobrevivência. 

O racismo estrutural e a desigualdade de gênero aumentam a sobrecarga de docentes negros e mulheres. A negação do racismo e do sexismo também perpetua a violência no ambiente escolar. Ellen Cardoso destaca que, muitas vezes, professores e professoras negras assumem sozinhos e sozinhas o acolhimento de casos de discriminação racial, situações que deveriam ser abordadas de forma coletiva por todas as pessoas. 

“As coisas acabam consequentemente caindo no colo desse professor, dessa professora negra. Ou porque a criança, o adolescente negro, vê aquela única pessoa negra na escola como a única possibilidade de identificação, de acolhimento. Então isso também causa uma sobrecarga, o que deveria ser uma responsabilidade coletiva, sobretudo de pessoas brancas, mas o que acaba acontecendo é o oposto", comenta.

Como descansar? 

Em um mundo hiperconectado e voltado para a cultura da hiperprodutividade, desconectar e retomar os vínculos sociais são caminhos para o descanso. A psicóloga destaca, em entrevista, a relevância de se buscar recursos terapêuticos acessíveis.

Em período de férias escolares, como nos meses de julho, dezembro e janeiro, muitos docentes levam trabalho e atividades curriculares para suas casas e no seu tempo de descanso. 

Parte significativa deles adoece, justamente, quando consegue desacelerar, afirma Ellen. Nesse sentido, se distanciar das telas dos celulares e computadores durante as férias podem iniciar esse período de descanso. 

“O autocuidado também não deve se limitar à terapia, que muitas vezes é inacessível financeiramente. Como alternativa, os professores, as professoras podem buscar grupos terapêuticos gratuitos, atividades físicas que não foquem em performance, e práticas ancestrais como chás, banhos de ervas e momentos de respiração para integrar o cuidado à rotina diária”, recomenda a psicóloga e formadora.

Adoecimento mental e a violência do contexto escolar 

Estudo divulgado pelo Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo (Apeoesp) em maio de 2026 mostrou que97% dos servidores da educação paulista associam o sofrimento emocional ao trabalho. Entre os principais sintomas relatados estão ansiedade, síndrome do pânico, depressão e distúrbios do sono.

Esse adoecimento é resultado de um fracasso coletivo, de precárias condições de trabalho,volume excessivo de atividades, remuneração salarial inadequada, entre outros aspectos. 

Criar espaços permanentes de escuta, valorização profissional, condições de trabalho adequadas, políticas públicas voltadas à saúde mental e fortalecimento da convivência escolar podem apoiar esse resgate individual, e coletivo, da saúde mental. Um exemplo de espaços como esse é o grupo terapêutico de mulheres negrasDiálogos Femininos, mediado por Ellen. 

“É pensar em promover melhores condições de trabalho, espaços de conversa, de diálogos entre o grupo, elevar esse debate para outras instâncias, que esse debate faça parte da nossa sociedade, e pensar também o cuidado em saúde mental, e aí pensando de uma forma mais específica, no processo terapêutico, pensar em outros recursos, como atividade física, isso não deveria ser só uma preocupação individual, isso deveria ser também uma preocupação institucional”, finaliza a psicóloga e educadora. 

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