Teoria Social Cognitiva e suas contribuições para os estudos de clima escolar e formação docente
Em entrevista, Ana Cecília de Medeiros Maciel relaciona a teoria com a prática de professores e a promoção de relações sociais positivas nas escolas
Desenvolvida por Albert Bandura, psicólogo canadense, a Teoria Social Cognitiva (TSC) propõe o aprendizado por meio da experiência direta e da observação dos outros indivíduos nos processos de modelação destacando processos cognitivos como crenças de autoeficácia. Mas como seria possível incorporar os princípios desta teoria na formação de professores? Ou ainda, quais as relações entre a TSC e o clima escolar?
A Teoria Social Cognitiva embasa os trabalhos de pesquisa deAna Cecília de Medeiros Maciel, doDepartamento de Pesquisas Educacionaisda Fundação Carlos Chagas (DPE/FCC), que se dedica a estudos relacionados àautorregulação da aprendizagem, autorregulação emocional e crenças de autoeficácia.
De acordo com Ana Cecília, a autorregulação é processo intencional visando a obtenção de uma meta, na qual existe uma mobilização e gerenciamento dos comportamentos, pensamentos e sentimentos, os quais são governados por padrões de conduta.
Nesse sentido, Ana enfatiza que o desenvolvimento da autorregulação por parte dos docentes implica a capacidade de monitorar e avaliar o próprio processo de organização e realização de seus trabalhos de forma intencional, tal como se espera que façam com seus estudantes. Tal movimento pressupõe não apenas a adoção de estratégias conscientes de acompanhamento e ajuste, mas também o reconhecimento do professor como agente ativo na gestão de suas práticas, em consonância com os princípios que orientam a ação pedagógica.
Esta é uma teoria explicativa do comportamento humano que ajuda a entender os processos decisórios e situações das pessoas em seus ambientes, sendo portanto, uma perspectiva potente para realizar estudos sobre o clima escolar.
Ele pode ser conceituado como a percepção coletiva que as pessoas têm sobre como é viver e conviver dentro de uma escola. Ele nasce das experiências diárias e da forma como cada grupo — docentes, estudantes, gestores, funcionários e famílias — percebe regras, valores, relações interpessoais, modos de organização e as condições físicas e pedagógicas do ambiente.
Segundo Ana Cecília, cada escola desenvolve um clima próprio, que funciona como uma espécie de “atmosfera” psicossocial, ou seja, influencia a maneira como as pessoas se relacionam, aprendem e trabalham, ao mesmo tempo em que é moldado por essas interações.
“Quando o clima escolar é positivo, ele favorece bem‑estar e aprendizagem, e por outro lado, quando negativo, pode comprometer tanto a qualidade de vida quanto os processos educativos. Portanto, um docente inserido em uma escola com clima positivo tende a vivenciar relações mais colaborativas, respeito mútuo e comunicação aberta, o que reforça sua sensação de pertencimento e segurança profissional”, ressalta Ana Cecília.
Evidências mostram que ambientes escolares marcados por apoio institucional, clareza de normas, relações respeitosas e participação coletiva favorecem níveis mais altos de autoeficácia docente, porque ampliam as oportunidades de experimentar sucesso, receber feedbacks construtivos e compartilhar práticas eficazes.
Outro aspecto destacado pela pesquisadora é o papel central da colaboração entre pares nesse processo: quando docentes planejam juntos, analisam situações de sala de aula, observam práticas uns dos outros e constroem soluções coletivas, eles desenvolvem percepções mais robustas de competência e reduzem a sensação de isolamento.
“Assim, quando o clima escolar sustenta convivência saudável, cooperação e apoio mútuo, o professor se sente mais motivado, mais confiante para aprimorar sua prática e mais engajado em promover aprendizagens de qualidade, pois reconhece que atua em uma rede que valida, apoia e potencializa seu desenvolvimento profissional”, complementa Ana Cecília.
Modelos de capacitação docente
Os modelos de capacitação alinhados à Teoria Social Cognitiva, segundo a pesquisadora, consideram que o comportamento docente é influenciado pelo ambiente, mas propicia o docente a utilizar a sua capacidade como agente e seja parcialmente responsável pela transformação deste mesmo ambiente.
A transposição dos conceitos acontece quando a formação deixa de focar apenas em transmissão de conteúdos e passa a criar condições para que os docentes se tornem agênticos, desenvolvam crenças de autoeficácia, estratégias de autorregulação e aprendizagem social — exatamente como Bandura descreve.
Isso significa, para Ana Cecília, estruturar programas de formação que ofereçam experiências de domínio, nas quais o professor vivencia práticas, testa estratégias e observa resultados concretos em sua sala de aula. Também implica incorporar os princípios da modelação na capacitação de docentes, ao criar situações em que o docente observa práticas reais, compreende o raciocínio pedagógico por trás delas, interpreta suas consequências e, a partir disso, reconstrói sua própria forma de agir.
Ainda segundo a pesquisadora, “o processo formativo precisa contemplar momentos de persuasão social qualificada, com feedbacks específicos, focados em processos pedagógicos e decisões profissionais, e não em elogios genéricos. Além disso, deve ensinar o docente a definir suas metas de aprendizagem, monitorar seu progresso, ajustar estratégias e refletir sobre suas próprias emoções e crenças”, completa.
Teoria Social Cognitiva e clima escolar
Em sua atuação noDepartamento de Pesquisas Educacionaisda FCC, Ana Cecília colabora com o pesquisadorAdriano Moroem diversos projetos voltados ao desenvolvimento de instrumentos de medida para o Clima Escolar.
Entre eles, destaca-se a elaboração de avaliações voltadas às percepções de famílias e funcionários de escolas, com o objetivo de ampliar o escopo da mensuração do clima e permitindo captar a visão de todos os atores da comunidade escolar. Os dados deste estudo, segundo a pesquisadora, já foram coletados e encontram-se em fase de análise estatística.
Ana Cecília destaca o desenvolvimento de um instrumento destinado à avaliação das crenças de eficácia das equipes gestoras na promoção de um clima escolar positivo. A coleta de dados nesta pesquisa ainda está em andamento, por meio de um aplicativo que realiza uma avaliação idiográfica, considerando crenças de autoeficácia em contextos situacionais específicos.
Em parceria com o Ministério da Educação (MEC), os pesquisadores concluíram um estudo de grande porte intituladoLeitura Guiadacom as equipes gestoras dos anos finais, viabilizada por meio de um Acordo de Cooperação Técnica entre a FCC e o órgão federal. O trabalho resultou na produção doGuia Clima Escolar Positivo– orientações para as equipes gestoras dos anos finais.
Além dessas iniciativas, a pesquisadora ainda colaborou com as ações doCentro de Ciência para o Desenvolvimento da Educação Básica (CCDEB), co-coordenado por Adriano Moro, na coleta de dados sobre Clima Escolar em escolas públicas do estado de São Paulo, realizada no último bimestre de 2025.
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